de coração
Texto: Vanessa Rodrigues
Filme: Rodriane DL/ Renata Corrêa / Caroline Biagi / Ana Paula Málaga Carreiro / Alex Rocca
Estrelando: MARCO NOVACK E CAROLINA FAUQUEMONT
O cara percebeu que não tinha mais volta, arrancou o coração ainda quente. Levou embrulhado num pano de prato pro bar do Batista, pra ele fritar na manteiga, servir como tira-gosto. Também pediu uma cerveja.
uma pausa
Este blog terá uma pausa para que eu me concentre. Criei um tumblr que reunirá alguns achados internéticos. Se chama tamises.
Até a volta.
que aqui gorjeiam
Da janela do meu quarto as casas lá de baixo. E a fileira de pombas que se agrupam todas no mesmo telhado hospitaleiro.
Quando se apronta uma chuva, vejo uns pássaros pequenos dançarem nervosos à altura do meu 5º andar. Como se procurassem abrigo nesse lugar onde são estrangeiros, mais ainda do que eu.
Às seis da tarde, coalham o céu os helicópteros de São Paulo.
ficção
Não acredito em nada que proferi, nesse tom seguro de quem conhece todas as respostas ou pelo menos a demonstração de uma certa força que daria tudo para ter de verdade, que, se a tivesse, descolaria do peito à força e entregaria a ela.
Se essa força que manteve meu tom de voz sereno e firme fosse verdadeira, esse buraco no peito talvez tivesse valido a pena.
Mas nessa manhã discursei uma espécie triste e mentirosa de literatura. Construção meio oca, paredes de isopor, cidadela cenográfica.
diante de outro céu
Quando tempo ainda para regular a abertura das pupilas diante do céu mais aberto e o fluxo de águas do corpo em busca do equilíbrio desse lado de fora, seco, pesado às vezes, micropedaços de fumaça entrando pelos poros, a cortina não conforta o sol da manhã, já quente, desde o começo. O não-hábito, ando atenta o tempo todo, não me perder, não ser pega de surpresa, entrar nas ruazinhas curvas do bairro e nunca mais sair de lá, o labirinto protegendo sabe-se lá do quê, tantos carros, o calor. Atenta a tudo, mas é preciso distração às vezes. Pensar em outras coisas, no sonho da noite passada, ouvir qualquer coisa nos fones e andar automaticamente, às vezes é preciso andar automaticamente porque senão é isso, uma canseira de concentração que nunca passa, e o outro dia você não se lembra mais do tal projeto-em-construção porque a cabeça, a cabeça, a gente enxerga é mesmo com a cabeça, o corpo inteiro, o nariz, os olhos irritados, colírio, água corrente no rosto, mas e essa taquicardia, essa sensação, quando é, quando é que viver automaticamente voltará a me dar tempo para as outras coisas, ler aquela poesia, costurar as almofadas, escrever o romance.
(pensei até em abandonar esse blog. e aproveitar o aperto para escrever de verdade.)
somos legião
David Toscana fez uma conta rápida e concluiu que se vivermos bem, quando se vive muito, o decurso não ultrapassa os 30 mil dias. Ele tem razão.
E os dias têm passado tão rápido, alguma coisa que afetou nossa percepção de tempo, tanta coisa pra fazer, tantas vontades. Acho que isso tem a ver com a quantidade imensa de pequenos interesses que vão se enfileirando, com a quantidade imensa de pequenos compromissos que nos são impostos, ou voluntariamente adquiridos.
Aliás, Odyr falou disso dia desses.
Na mesma tarde em que vi o Toscana falar, achei uma 3×4 na Av. Paulista.
O que me fez pensar que somos muitos.
E viveremos pouco.
provisório
Amanhã chegam os livros, os sapatos, as roupas de cama. Chega a geladeira nova, com o cheiro ainda dos plásticos que protegem a pintura, o fogão, intacto. Por enquanto, é do café que descubro o que se passa lá fora, habito nesses dias uma caverna clara sem qualquer meio de comunicação, mas que fica ali, há algumas quadras da cafeteria competente com wi-fi e baladas dos anos 90 grátis (não esquecer os fones, nota para a posteridade).
Ainda estranho o cheiro das paredes, o sabor da água da torneira da pia. Mas é agradável olhar as paredes brancas, as estantes ainda vazias, o sol que preenche todos os cantos daquela casa, que também tem me estranhado, mas que nos recebeu com muita boa vontade.
O vazio provisório, esse vazio que habito por enquanto, é a materialização disso que tenho sentido nos últimos meses. A ausência temporária daquilo que está a caminho, um silêncio preparatório para sei lá que discurso, o recuo para impulso.
szymborskiante
O que é esta mesa? Mesa. Para onde te leva essa palavra?
E se te descrevesse o som que faz quando a arrasto, se te contasse o que larguei sobre ela, meu anel pesado, os lápis sem ponta, as canetas, um bilhete para mim mesma, memória, o dicionário, a faca.
E se eu a pudesse encontrar, a palavra exata (a que não existe) ainda assim não daria conta da natureza mole e firme, da superfície macia que reveste as fibras duras sobre a qual apoio minhas mãos, e o caderno, essas teclas.
Não sei dizer se a madeira é fria. Mas sei que fria é também uma redução linear daquilo tudo que se movimenta no calor, daquilo tudo que se encolhe de frio, o caminho que percorre desde os dedos, os nervos.
A palavra não é. A palavra representa, reduz, a palavra é falta.
E se digo silêncio, que barulho provoco, os sibilos? Que memórias de águas, barulhentas, que vozes intrometidas de sussurro?
A verdade é também uma palavra. O amor. A falta. O gozo.
E reunimos mil palavras, como se juntas essas peças esburacadas se completassem.
Elas se aprofundam.
natureza morta

Uma bacia de vidro cheia de maçãs miúdas e o tempo também está ali dentro.
metáfora de morte, metáfora do fim
Acho que comecei a me interessar mais a sério pela fotografia lendo, não só vendo, mas lendo o Cartier-Bresson. Principalmente toda sua argumentação a respeito do instante, do estar presente, da consciência do olhar. Mas o que me pegou mesmo foi a minha própria tomada de consciência em relação à metáfora de morte que uma fotografia carrega. Não eternizando o olhar ou as feições dos mortos, mas porque as fotografias, essas da família, que ficam em caixas de sapato na parte de cima do armário ou em grandes álbuns amarelados sempre à mão para as visitas, essas fotografias sem nenhuma pretensão estética provam o quanto somos completamente dispensáveis. O mundo particular onde hoje ocupamos sem dúvida um lugar importante já foi um mundo completo antes de chegarmos. Ninguém sente a falta daquilo que não espera.
Fotografias dessas, despretensiosas, são memória. Revelam a ausência mas é ao mesmo tempo presença de qualquer coisa que conhecemos. Mas por não se fiar apenas nas imagens inefáveis das lembranças (já tentou descrever um sonho?) a gente tira fotos, que reacendem alguns sentimentos.
Estou desmontando minha casa. Mas é mais que isso. É deixar algumas coisas para trás também. Esse apartamento nunca mais será como foi quando estivemos aqui. Ainda que por algum acaso a gente volte exatamente para este endereço, não seremos mais os mesmos. E essas palavras imensas (nunca, sempre) assustam. Sempre.
E tenho tido uma incontrolável vontade de documentar tudo, fotografar cada canto, cada pedaço descascado da pintura, cada risco na parede, o pó por detrás dos livros, a parede verde desaparecendo, até, se fosse possível, o cheiro da casa, que tem sido substituído pelos solventes da tinta, pelo cheiro das caixas de papelão.
E me vem agora que essa maneira gulosa como temos fotografado tudo ultimamente, cada canto da catedral, cada pedaço do parque estrangeiro, é medo, medo da morte. Medo do fim.











deixe um comentário