E se sente constrangida com o moço do chapéu. Não porque desafina no refrão de ‘você não entende nada’ ou porque as cordas do violão estão frouxas e o amplificador chia o tempo todo. Há um outro ruído ali. No geral não aplaude, enche a boca de feijoada, checa o celular, puxa um assunto fraco. Se aplaude, nunca cruza o olhar. Não porque desgosta de todo daquele repertório velho, da música do Brasil que já foi, dos sambas que não dizem nada — aqui não é Copa, aqui não é Urca, aqui não tem mar. Seria melhor um Lamartine, um Adoniran, Cartola. Uma voz sem microfone, batidinhas em caixas de fósforo, um samba sussurro.
Mas o que incomoda mesmo é o reflexo. Estar ali, fingindo ser artista a encher o salão com um barulhinho que não incomode, tocando para ninguém uma música que não se deve ouvir. É que você não teve a mesma coragem e joga cinco reais no panamá fake do sambista antes de voltar às suas planilhas.