dos intangíveis

Descrever um sonho não é o mesmo que descrever uma cena de filme. Não é o mesmo que burilar um verso, refazer um parágrafo. Não é feito de criatividade, o sonho.

A gente diminui a importância e o mistério do sonho quando o descreve. Na manhã seguinte, despeja água quente no coador e enquanto arruma a mesa, xícaras e facas, “noite passada tive um sonho. eu abraçava alguém com quem troquei uma ou duas palavras, mas consegui sentir o cheiro que ele tinha”, ela disse. “e que cheiro era esse?”, ele respondeu.

Tem quem se apaixone no tempo estranho e intermitente de um sonho. Não precisa que lhe visite outras vezes. Tem gente que se apaixona perdidamente enquanto dorme. E na manhã seguinte, enquanto despeja água no coador, “noite passada eu tive um sonho muito estranho, mas não me lembro direito”, disse. “mas acordei com uma saudade de luto e uma canseira de gozo, e sei que se pensar o dia todo para sonhar de novo, se der certo a tática, não será o mesmo homem que construirei”, pensou.

solilóquio

hiroshi sugimoto

‘Romance é o movimento decomposto’, ele disse.

E que movimento ela faz?

Nenhum, eu diria.

Ela está parada, olhando pela janela, vendo umas nuvens avançarem lentamente a outras nuvens, escurecendo o céu de branco.

O tempo não passa linear.

‘Isso eu já sabia’, ela disse.

da experiência

eu tinha vinte e sete anos em doze de maio de dois mil e doze.

até o dia doze de maio de dois mil e doze eu já tinha pensado em temas largos, imensidões,  como a morte, o tempo e já tinha lido grandes romances, adotado poetas, visto grandes filmes, conversava sobre fotografia e tomava café sem açúcar.

eu tinha vinte sete anos e algumas convicções a respeito da política do mundo, do funcionamento do tempo, da realidade literária. crenças.

em doze de maio de dois mil e doze eram tempos de ingenuidade e eu ainda desligava o telefone da tomada e filtrava os e-mails que respondia e me preocupava muito em arranjar trabalhos já que aos vinte e sete anos eu tinha decidido me mudar de cidade, decidido seguir com umas ideias, aos vinte e sete anos talvez fosse a hora de começar alguma coisa que fizesse algum sentido.

em doze de maio de dois mil e doze eu morava em São Paulo, num apartamento de um quarto, estava com pouco dinheiro mas já tinha comprado livros novos que se acumulavam na pilha ao lado da cama daquilo que era urgente ser lido, que nunca diminuía porque apesar de trabalhar com literatura eu guardava uma memória ancestral de operário que só valorizava o que se fazia com as mãos e por muitas vezes eu trocava a leitura pelos trabalhos da cozinha, pela organização das prateleiras, por consertar as tomadas e instalar a cortina nova.

mas aos vinte e sete anos eu era mais insistente e escolhia por critérios racionais e nem tanto os romances que chegariam na minha casa.

em doze de maio  de dois mil e doze eu ainda recuperava meu corpo de uma noite anterior bastante cansativa mas estava feliz porque viria finalmente o grande show que eu ainda não sabia que seria às vinte e uma horas.

às vinte e uma horas eu ainda não sabia que decantaria tudo isso de que eu era feita aos vinte e sete anos, que eu suspenderia por alguns minutos a preocupação com a grana, com o trabalho-em-processo, com a saúde de minha mãe e o filho do meu irmão mais novo que chega logo, eu suspenderia a uma hora as lembranças e as ideias e as memórias e aquilo que eu era e já tinha deixado de ser e o que achava que era e aquilo que eu cria que sabiam de quem eu era, eu assentaria por uns minutos a ansiedade, empilharia as incertezas do lado escuro da memória.

às vinte e duas horas e trinta do dia doze de maio de dois mil e doze eu tomei uma vodca com minha amiga, e esperava o show começar, sentada na quinta fileira de um auditório espaçoso onde teria uma experiência de desintegração porque por uns minutos o que eu achava que era aos vinte e sete anos não importava. eu fazia força para me esquecer que precisava pôr as meias para lavar e comprar pão para o café da manhã, eu me esquecia que precisava retomar de uma vez os projetos que estavam protelados em C://Meus Documentos/Importâncias porque por um pouco mais de uma hora em doze de maio de dois mil e doze eu era reverberação, eu e os atentos éramos a sala de concerto, e eu sentia o assoalho e os dentes vibrarem, eu sentia a força daquele ar que vinha abrupto desde o palco e acalmava para depois explodir e por alguns minutos eu tinha certeza que fiz parte de alguma coisa muito maior que eu mesma, eu me desintegrei porque já não havia indivíduos, fomos por alguns instantes da mesma natureza elétrica, caixas acústicas aquela música ressonava na minha caixa torácica, ao redor dos pulmões, a música, ao redor do coração, a música, me conectando a outras pessoas, me descolando do centro do mundo, vibrando cada molécula, misturando meus desejos a lembranças de longe.

ainda trago comigo os desejos desconhecidos de quem ocupava as poltronas vizinhas.

trecho

Há uns anos, meu pai fixou-se no mar. E hoje sabe que seu destino é envelhecer na beira, morrer diante do imenso. Meu pai, tão não pescador.

É que não são peixes o que busca ali. Quer distrair seus olhos perdidos naquele horizonte fluido e impossível, na exata linha onde, ilude-se, percebe o céu esvaecer em oceano, silenciar-se diante dele sem ser incomodado, a praia sem atrativos numa tarde cinza, o vento carregando vilas de areia esquecidas desde a tarde ensolarada do último dia do verão.

É de areia, sal e água a estrutura de sua arca. É de sonho e expectativa. Meu pai constrói em silêncio uma arca que o levará ao fim do continente.

[continua]

o gato da caixa

Renhui Zhao

Pouco importa se a caixa escapa-lhe das vistas.

Se estática, presa em seu estado de coisa imóvel ela se torne súbito invisível. Pouco importa, afinal, que não se veja o gato. Que ninguém sinta sua presença, veja os olhos do gato.

Ele ainda existe em seu mistério. Suas angústias de gato, seus desejos, não se acalmarão só porque não se lembram mais dele.

Ao contrário. Abandonado às margens da narrativa, é possível que o gato, angustiado na caixa, tenha ele mesmo a consciência de sua vida de gato e passe a existir ainda mais já que existe também para ele mesmo.

que pode ser a última vez

hiroshi sugimoto

Senta-te de cabelos brancos na cadeira da praia, relê o romance que te fez chorar aos vinte anos, olha o mar que pode ser a última vez (e que diferença faria, a primeira, a última, a vigésima quarta vez). Os netos te chamam para o almoço e você sente saudades de teu companheiro de vida que foi antes. Os olhos mareados, ninguém percebe no teu rosto velho. Mas valeu a pena, se caísse morta agora aos pés dos teus genros teria valido a pena. Anda pesada de tanta memória para a mesa do almoço: 90 anos, contam. Não resta muito tempo ainda, melhor sentar na cadeira da praia, olhar o mar, reler o romance da juventude.

Ou o coração para de repente, morre segurando ao meio o romance aos vinte anos — não saberá o final mas já não importa mais.

Quando eu morrer, quero dizer, o que peço a Deus com o perdão que Ele tenha é que eu não morra depois do pai porque não quero viver na casa de nenhum de vocês. Disse.

crônica do ócio

Às duas horas de quinta, só os aposentados vão ao cinema. Também os artistas, os profissionais liberais e os desempregados. Os que estão de férias passando pela cidade. Os que tiraram a tarde livre.

Ao meio-dia, a rua está lotada. Os homens de camisa e calças de alfaiate, as mulheres  de camisa e calças de alfaiate. Apressam-se para almoçar.

A fila de espera angustia a fome e os olhos dos trabalhadores famintos desautorizam as reflexões digestivas.

Saciados e com pressa, cruzam por mim. Que aguardo sem saber onde pôr as mãos na fila do cinema a sessão das duas.

Estou encharcada da culpa calvinista. E não aceito meu ofício de bom grado porque temo.

você não entende nada

E se sente constrangida com o moço do chapéu. Não porque desafina no refrão de ‘você não entende nada’ ou porque as cordas do violão estão frouxas e o amplificador chia o tempo todo. Há um outro ruído ali. No geral não aplaude, enche a boca de feijoada, checa o celular, puxa um assunto fraco. Se aplaude, nunca cruza o olhar. Não porque desgosta de todo daquele repertório velho, da música do Brasil que já foi, dos sambas que não dizem nada — aqui não é Copa, aqui não é Urca, aqui não tem mar. Seria melhor um Lamartine, um Adoniran, Cartola. Uma voz sem microfone, batidinhas em caixas de fósforo, um samba sussurro.

Mas o que incomoda mesmo é o reflexo. Estar ali, fingindo ser artista a encher o salão com um barulhinho que não incomode, tocando para ninguém uma música que não se deve ouvir. É que você não teve a mesma coragem e joga cinco reais no panamá fake do sambista antes de voltar às suas planilhas.

 

por dentro

Alguém um dia refletiu sobre o caráter ensimesmante dos trens subterrâneos. Sem as paisagens lá de fora, os postes de luz e as portas abertas das padarias, as frutas nas caixas das quitandas, os brinquedos de plástico, os sacos de estopa, as mulheres com jeans e camiseta e sandália sem salto, os homens com bermuda, boné e tênis de corrida, os cães presos com coleiras macias ao redor do pelo limpo, os cães livres esfregando a sarna na quina das paredes e as janelas dos cafés com wifi e ar condicionado e as mesas de plástico dos botequins, a mulher segurando um livro e um cigarro aceso, os adolescentes com fones de ouvido, com os cadernos da escola, com os cachimbos de craque com as sacolas de compra. Nada disso, nem as pequenas flores dos vãos da calçada. As árvores podadas ao redor dos fios de luz. Nem as pombas e os copos de plástico do chão, nada disso ocupa a cabeça de quem anda em metrôs. Só restam os caminhos do de-dentro. Os olhos mortos enxergam pelo avesso. Os nervos, a memória em silêncio, o discurso que não foi mas deveria. Um ensaio de vida.

E me pergunto o que tenho feito em todos esses dias. Lido muito menos, ouvido alguma música. Mas tenho andado de trem, os que passam por cima da terra, seguem uns trilhos antigos me levando ao trabalho (aquele que significa pouco, que acrescenta quase nada), às urgências das coisas e aos prazos.

“Ler poesia para quê? / Eu trabalho muito, sou contemporâneo. Ler poesia para quê?”