bondage, uma metáfora

Lá pelos idos do século passado, senhorita Betty Page foi considerada uma influência demasiado ruim para os jovenzinhos que compravam as superinstrutivas revistas cujas capas estampava. Bettie Page, the queen of pin-ups, foi uma das primeiras mulheres fotografadas com fantasias de fetiche (espartilhos, saltos altíssimos, cordas e aparelhos bizarros). O cliente ia lá, levava seus apetrechos especiais e encomendava as fotos. A revista não era comercializada livremente na América superconservadora do Mr. McCarthy — o que ele diria sobre os sites contemporâneos a esse respeito?

Pensei ontem (entre tantas coisas que passaram pela minha cabeça enquanto eu virava a noite trabalhando) que bondage pode ser uma metáfora. No fundo, a gente está mesmo amarrado (na cama, na mesa do escritório ou na sala do jantar do Natal), tendo que agir num espaço restrito, movimentos travados, fazendo coisas que não queremos mas que nos dão prazer, ou pelo menos alguma satisfação altruísta — (ok, meu bem, pode deixar que uso o avental hoje à noite…). Acho que os budistas chamariam cordas assim  de samsara. Mas pode ser uma associação deveras ousada.

Do desejo

O ruído interior

[O meu ruído

De vísceras e vida

Que não passa].

Hilda Hilst

O ruído dos sonhos. Fora do tempo, flutuando no espaço, sem gravidade. Sem a gravidade do remorso, das sensações bíblicas, dos mandamentos. Ama-te o próximo como a ti mesmo. Lorena resolveu comprar flores para si no dia do seu aniversário. Lorena Dalloway.

Um vento no estômago, um rasgo por dentro. Uma orquestra de tiranos desarmonizando a marcha daquela rotina. Lorena gostava da espuma morna e dos vidros da janela do meio-dia embaçado com a água levíssima daquele banho de pecados. Bela da tarde, ela sozinha dela mesma.

“Veio aqui por quê?”

“Pra ver você.”

Era casada com o Ferreira. Ele achava aspiradores de pó coloridos ótimos presentes. E tinha um olhar derretido de orgulho por Lorena.

“Sei.”

“Você continua bonita”

“Você também.”

E por dentro não se esquecia dele, de K, imersa naquela neblina quente, um mormaço de espumas, imersa em imaginação adolescente e água era a água, a água quente do mesmo chuveiro que lhe tocava e no fundo uma presença vazia dela mesma esperando o gozo, expelindo o universo pelas narinas, impedindo o mesmo ar cósmico de ventilar suas idéias profanas e só ela e deus pela janela espiavam sua pequenez de pecadora.

“Sonhei com você.”

“Ah, é?”

“Sim. Tinha uma luz âmbar, sabe o que é âmbar? Então, uma luz âmbar, lençóis lisos e um teto que descia e eu calçando belos e refinados e velhos sapatos de cetim, uma meia 7/8 desfiada na altura do tornozelo que me dava o certo frescor decadente e trágico. Lembro que pude até sentir a textura plástica das meias sintéticas, as mãos escorriam pelas pernas como as charmosas artistas de cabaré. E eu deixava cair naturalmente meus sapatos batidos. Acendia um cigarro na janela e o néon do letreiro me revelava vermelha e verde minhas curvas seculares. E estava tão majestosamente sexy e triste, olhando para o pátio dos fundos de um motel fuleiro, um cabaré no Texas, ou em Paris, que quase nem precisava de mais ninguém. Eu tinha uma lingerie preta enorme que me cobria toda, mas me desnudava de minhas próprias convicções porque no fundo sabia que aquilo ia acabar e você ia embora. De novo.”

“E eu?”

“E você estava deitado de costas, os olhos vendados com um lenço preto e branco, na parte mais escura daquele quarto mofado. Tinha um ventilador no teto que compensava seus rompantes de calor primitivo e eu era a morte tocando órgão numa igreja gótica, parada ali na janela, te vendo não me ver majestosamente vulgar, com minha silhueta vintage, um colar de pérolas de plástico até o umbigo, um penhoar de tule finíssimo.”

“Que tortura.”

“Volta quando?”

“Embarco amanhã às 6 horas.”

“Tel Aviv?”

“Um concerto.”

“Sei.”

“Você casou?”

“Tecnicamente. Ferreira me comprou uma aliança de ouro mas tenho alergia. Preferi não usar. Não fizemos festa. E você?”

“Tenho uma namorada que viaja o tempo todo. Mas pelo menos dorme na rede ou no chão batido sem problemas. Perfeito.”

“Sei. Eu tão tomada elétrica e concreto, né?”

“Ah, mas não quis dizer que…”

“Eu acho melhor você… O Ferreira. Volta do trabalho. Melhor eu…”

“Posso te levar?”

“Melhor não.”

“Então. Até mais.”

Ouvia jazz e prendia o cabelo com grampos. Mechas desorganizadas escorriam pela nuca. Olhar triste e perdido para o pátio dos fundos do motel fuleiro. Ferreira, tão doce.

E eu te dominava os braços viscerais, dominava essa pressa de fim, essa presa da morte. E te fazia esperar. Esperar por mim naquela cama. Tortura. Mas isso não contei.

Ferreira comprou uma caixa de lenços bordados.

E te prendia entre minhas pernas fortes de garçonete, dizia umas coisas em russo, ou em páli, não entenderia, não entenderia. Te fazia sentir-te engolido por minha fúria líquida, como um tsunami em câmera lenta juntava teus pedaços com a língua. E cuspia. Chegava a ser patéticas tuas mãos se contorcendo. Eu descia as escadas que grunhiam. E desaparecia no pátio dos caminhões e lixo com meu penhoar de tule preto levíssimo, rainha sobre os saltos elegantes de meus sapatos tortos.

Ferreira acha que aspiradores são presentes ótimos.

“Eu me apaixonei por você.”

“Você é uma amiga ótima e quero te ver nos próximos oitenta anos.”

“Eu amei você.”

“Às vezes sonho acordado. O que você tem?”

“Um feitiço vencido.”

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