falta de imaginação

A moral moderna desativa a ordem familiar que deveria garantir as pessoas contra os devaneios e as devastações do seu próprio desejo.

(Pascal Bruckner)

Copio aqui a epígrafe do ótimo artigo de Jardel Dias Cavalcanti, que saiu no Digestivo Cultural dia desses –  deus salve o twitter, que organiza todas as coisas do mundo em 140 caracteres. Mas quero deixar claro que não vejo razão para que todos os desejos sejam controlados. Claro, minha obsessão destrutiva secreta, que quer quebrar carros com bastões de madeira ou demolir uma casa com aquelas máquinas que jogam uma bola de ferro pendurada, é um desejo não realizável. Mas há esse desejo legitimamente e um dia quem sabe entenderei o que isso quer dizer.

Mas falemos do desejo kitsch. Desejo Almodóvar desses tão comuns e que a internet com todos seus recursos pode alimentar.

Quero falar da pouca criatividade por esse mundo erótico-literário. Quero dizer, desses contos que vêm em coletâneas proibidas para menores, os contos pornoeróticos comunzões, esses que pululam sites safados, revistas de meninas desnudas, essas coisas. Excetuamos aqui, fique claro, Hildinha, Caio F. A., Raduan e eteceterá.

É preciso deixar os espaços em branco. Não precisa da fórmula explícita aquilo dentro disso ou isso na boca daquela ou ele enfiando tudo nela ou ela gritando desesperadamente por que quase. Fico de fato irritada com alguns textos desse tipo. Enfiara? Ah, qual é? Não usem esse tempo temeroso para verbos tão diretos.

Claro, isso na minha modestíssima opinião (#privatejoke)

Deve haver quem ache sexy descrições biológicas. Essas questões sexuais nem o tarado do Freud explica mesmo… Só acho uma pena. Um desperdício de recursos. Vamos lá, a literatura imprime um tempo. E na vida real, a gente não quer sempre que demore mais uns segundozinhos?

Esses contos por aí sofrem de ejaculação precoce.

Mas fiquem com um bom exemplo da putaria das boas.

é este o canalha que eu amo”, e repassei na cabeça este outro lance trivial do nosso jogo, preâmbulo contudo de insuspeitadas tramas posteriores, e tão necessário como fazer avançar de começo a um simples peão sobre o tabuleiro, e em que eu, fechando a minha mão na sua, arrumava-lhe os dedos, imprimindo-lhes coragem, conduzindo-os sob meu comando aos cabelos do meu peito, até que eles, a exemplo dos meus próprios dedos debaixo do lençol desenvolvessem por si sós uma primorosa atividade clandestina, ou então, em etapa adiantada, depois de criteriosamente vasculhados nossos pêlos, caroços e tantos cheiros, quando os dois de joelhos medíamos o caminho mais prolongado de um único beijo, nossas mãos em palma se colando, os braços se abrindo num exercício quase cristão, nossos dentes mordendo ao outro a boca como se mordessem a carne macia do coração, e de olhos fechados, largando a imaginação nas curvas desses rodeios, me vi também às voltas com certas práticas, fosse quando eu em transe, e já soberbamente soerguido da sela do seu ventre, atendia precoce a um dos seus (dos meus) caprichos mais insólitos, atirando em jatos súbitos e violentos o visgo leitoso que lhe aderia a pele do rosto e a pele dos seios, ou fosse aquela outra, menos impulsiva e de lenta maturação, o fruto se desenvolvendo num crescendo mudo e paciente de rijas contrações, em que eu dentro dela, sem nos mexermos, chegávamos com gritos exasperados aos estertores da mais alta exaltação, e pensei ainda no salto perigoso do reverso, quando ela de bruços me oferecia generosamente um outro pasto.”

Um copo de cólera, Raduan Nassar

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2 thoughts on “falta de imaginação

  1. Bebendo da Flora Sussekind, e não dos florais de Bach, ocorre por aí, nas palavras de Raduan, um aniquilamento da narrativa por viés do machão pós-moderno. Mas bem que a femiazinha se rende, não é?

    Abraço,

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