o rio da minha aldeia

Eu vestia um figurino tosco – uma túnica de cetim vulgar – e olhos marcados por sombra prateada. Kitsch. A encenação fazia parte das comemorações do aniversário da Igreja e eu e mais onze meninas da minha idade (que frequentavam todos os sábados os cultos da juventude evangélica) dançaríamos, como Ester, no altar/palco do novo templo. Por completar 14 naquele ano e nunca tinha beijado. Vestida de branco, os cabelos amarelados de um mal-sucedido processo de descoloração, os dentes tortos com aparelhos recém-instalados e uma timidez do tamanho daquela imagem inocente e pobre, eu era a própria encarnação de uma adolescente evangélico-protestante de uma cidade do interior sem nenhuma referência do que hoje se transformou a minha vida.

E o outro, sem as mesmas referências, também magro demais, vestido de um branco encardido de rapaz solteiro, elogiou meus olhos doentes e verdes (sem os óculos por conta da apresentação), no backstage daquela noite de louvores. A gente namorou por muitos anos.

E por onde tem que andar uma pessoa para se transformar naquilo que ela acha que é? Eu sou aquela também. Todo mundo tem umas fotos que esconde. O fato é que com o tempo a gente acumula personalidades, não substitui uma pela outra.

Meu ceticismo me afastou de ideias megalomaníacas como paraíso ou destino. Sei o que vejo? Sei o que lembro, uma realidade filtrada pela memória, tão ficcional quanto esse conto chamado verdade. Não sei mais por onde anda esse cara. Deve estar casado com uma serva de Deus, com uns pares de filhos, morando num bairro mais afastado do centro da mesma cidade onde eu e meu marido moramos.

A gente nunca se cruzou pela rua. Talvez sim. Talvez num dia desses em que corria para a aula de francês e atravessava o calçadão às seis da tarde eu tenha pedido desculpas para um cara mais ou menos do mesmo tamanho, com o rosto mais ou menos parecido, mas eu não pude reparar porque estava atrasada e era dia de prova oral e ouvia um som muito alto (vou ficar surda antes dos quarenta há quem profetize) e estava num mundo plurilíngue entre o inglês da Sharon Jones, a memória das lições do semestre e o som das lojas populares (Rebolation-tion) e não percebi que naquele momento tinha reencontrado alguma coisa que nem me lembrava que tinha perdido (ou abandonado). Os objetos não saem sozinhos do sótão.

Falo como uma ateia. É mentira. O que sobrou desses quatro ou cinco anos de uma vida religiosa foi a certeza de não ser um bolinho de carne que pensa. Ou pelo menos de ser uma crente do milagre do pensamento, da sensibilidade.

Outro dia me peguei encantada com as escadas rolantes do shopping. Aquela pressa, o barulho da terça à tarde e mesmo com a furiosa batalha de gigantes entre sua vida importantíssima e a velocidade com que o universo se estica, todos sobem e descem com a mesma velocidade harmoniosa imposta pelas engrenagens prateadas circulares. Colocaria uma câmera ali onde estava, regularia a luz, o enquadramento. Uma trilha sonora impactante e minimalista, com uma textura oriental e umas batidas sincopadas tediosas. Teria uma videoarte. A estupenda e inacreditável poesia das escadas rolantes.

Como um gato correndo atrás da sombra de um pardal esperto e sádico. Como um canário kamikaze arrebentando a cabeça na janela blindada porque acreditou naquela samambaia de plástico. Como alguém que mesmo com fome consegue perceber um padrão rítmico nas escadas rolantes da praça de alimentação. Me diga, isso não é alma?

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“E por isso, porque pertence a menos gente, é mais livre e maior o rio da minha aldeia”.

Todo esse caminho. O rio da minha aldeia se encontrou com o mar e agora não existe mais. Agora só existe o mar. E daqui não mais se vai. Do outro lado do mar tem a Europa ou a América e depois a América de novo ou a Europa. Não tem por onde ir. Nunca será o mesmo rio que retornará na minha aldeia. Estará contaminada de outros rios, de outras milhares de aldeias. Por ter me esquecido, o perdi. Por nunca ter me sentado nas margens dele, o rio se foi. Morreu no mar, nunca voltará. Por ser da mesma cor que os outros rios das outras aldeias, ele se perdeu, eu o perdi.

Soltei a mão daquela menina feia. Deixei que caísse num abismo, no abismo depois do centeio ou num poço como a Alice. Só pude salvar seus óculos (eu os segurava enquanto ela repetia toda vermelha a coreografia mal-ensaiada naquela noite). E é através deles que vejo. Vejo por exemplo aquele letreiro da fábrica de carburadores do bairro onde vive minha mãe e seus seis gatos estéreis: “Nós fabricamos o silêncio” – depois das fenomenais escadas rolantes, passamos à poesia do mecânico do subúrbio.

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