em outros lugares

Ontem eu revi Quem quer ser John Malkovich. E me lembrei os milhares de corpos que já quis habitar durante esses anos.

Quis ser aquela aluna mau-caráter da quinta série que fala alto e já tem peitos.

Quis ser a patricinha que desfilava como baliza nas apresentações do sete de setembro (enquanto eu, muito longe de vestir um collant azul com botas brancas, me invisibilizava no uniforme de todo dia no feriado).

Quis ser minha amiga porque ela era mais bonita.

Quis ser as amigas cantoras de mpb despenteadas do meu irmão mais velho (despenteado e artista também).

Quis ser aquela menina que anda com a gente porque ela parece tão segura. 

Quis ser a Twiggy. A mocinha do Herald Tribune. A Amélie. A Clarah Averbuck.

Só evito querer ser o que me parece ser eu mesma. 

Mas cada vez que esculpo uma dessas máscaras de cera, é o nariz familiar que pressiona por dentro. Sou eu mesma ali por baixo. Conscientemente escondida, como um titeriteiro, um ator — é minha mão suja de sangue, mas a responsável é Lady Macbeth. 

“Ainda que se mova os trens, tu não te moves de ti”.

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4 thoughts on “em outros lugares

  1. Vou comentar uma frase boba de uma música do Pato Fu que não tem a ver exatamente com o que você escreveu, mas com como eu me senti lendo (porque me identifiquei também, de novo): “Eu quis ser eu mesmo, eu quis ser alguém, mas sou como os outros que não são ninguém.”

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