Paul

ou a mirabolante estória do polvo vidente que, como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones (um argumento para a Pixar)

essa coisa de copa do mundo fifa® sempre me pareceu meio encantatória mesmo. em um mês, a cada quatro anos, o mundo todo fica ali, ao redor da tevê, fascinado pelo andar às vezes sinuoso de uma bola e da coreografia tosca de alguns caras.

e mesmo que não nos importemos com a arte das escretes, não é possível evitar a dominicalização dos dias úteis que enfia tal qual uma vuvuzela empolgada o silêncio pelas janelas da sala cheirando a cerveja e doritos nacho.

é terça, de tarde e nenhum carro. só os coletivos, obrigados pela condição de utilidade primeira, seguem o itinerário tedioso ouvindo a narração nervosa minuto a minuto.

ninguém fica ileso à COPA.

mas daí, aparece um personagem pixariano. Um polvo que vive ali, num aquário qualquer e que prevê, com 100% de aproveitamento,  o resultado dos jogos, deixando ainda mais místico o ritual esportivo.

Dizem que Paul é de uma linhagem de polvos encantados, parente distante da pequena sereia. Mas foi raptado por um casal gay que tinha um gosto decorativo um tanto duvidoso.

Paul civilizou-se.

Já não havia mais espaço para suas façanhas mágicas. Vivia num aquário apertado num loft rústico do lado leste de Berlim. De frente para uma televisão.

O casal que o “adotara” não era muito ligado em programas de TV. Guardavam ainda os costumes da Alemanha oriental, e se diziam imunes aos encantos baixos do entretenimento popular. De modo que o aparelho vivia desligado, exceto nas festas em que sempre exibiam o filme do Scorsese sobre os Stones (com o qual empolgava-se o molusco). E na Copa.

Era véspera de ano de Copa, este. E a tevê permaneceu ligada por mais tempo que  o costume. Logo nos primeiros amistosos, o casal notou que Paul ficava estático, enroscado como podia nas paredes translúcidas. E que, de certa maneira peculiar, conseguia expressar-se. Mexia os tentáculos do lado do campo cuja equipe seria vencedora. Sempre no segundo tempo, era um polvo alemão metódico.

E ele só ficava assim, tão estranho, quando o Mick Jagger rebolava o Satisfaction.

O casal já sabia de seu gosto pelo rock clássico. Perceberam que futebol também o conquistara.

A fama da previsibilidade de Paul tomou a cidade. Ficara conhecido, era uma celebridade octópode, talvez a única depois do Kraken.

Ano seguinte, a Copa. Imagine o quanto o povo berlinense seria excitado com a chance de saber previamente o resultado dos embates!

Paul foi transferido para um aquário público.

E o resto, todos sabemos.

Previu acertadamente até a eliminação da Alemanha pela Espanha sem graça. E olha que a Espanha não é um país muito agradável para polvos, visto sua forte tradição culinária.

Era ético, um vidente profissional.

Que espera, ansioso, a visita de seu colega de previsão, Sir Mick Jagger, uma espécie de espelho quebrado desportivo.

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