firma

nada ensina mais que bater ponto numa firma. talvez só participar de uma festa de confraternização da firma.

Confraternização

E agora gostaria de chamar ao palco a senhora Rita de Cássia Marcondes para receber a homenagem por… vinte e cinco anos de casa. Por favor, uma forte salva de palmas para a senhora Rita, pessoal. Mais forte, vejam, são mais de duas décadas colaborando para que nossa empresa seja a número um no setor de alimentos.

E então, dona Rita, conte para nós o que a senhora sente nesse momento tão importante. Podemos dizer que é o ápice da curva narrativa dessa sua vida? Como foi entregar vinte e cinco verões aos nossos acionistas?

Me diga, dona Rita, o que sente em saber que está com quanto, quarenta anos? Ah, cinquenta, mas olha, ninguém diz, sabia? Mas me diga, como é voltar para casa e ver a sala vazia, o silêncio? Como é essa solidão? Imaginava que aos cinquenta estaria assim, virgem, sozinha, cuidando de sua mãe paralítica e odiando música? Quando a senhora ainda recortava as bailarinas das revistas imaginava que usaria esse uniforme por mais de duas décadas? Que receberia uma medalha por conta de tanta dedicação?

Não foi a senhora que um dia sonhou fazer parte da cruz vermelha? Ah, mas pense, a senhora tem agora uma carreira brilhante! Quantas recepcionistas ficaram tanto tempo no posto? Me diga, conhece alguém que tenha permanecido por mais tempo nessa função?

Não, de fato, não se pode ter tudo na vida. Mas que é isso, dona Rita, o momento agora é de alegria, não vamos chorar pelo passado, não é? Ah, e a senhora soube que ganhou também passagens para um fim de semana em Tibagi? De ônibus, mas é só porque não tem aeroporto por lá, mas é ônibus executivo! Viu só, pessoal, vão ter que atender os telefonemas na sexta, porque dona Rita terá folgas mais que merecidas, um fim de semana de rainha.

Sim, dona Rita, para que ficar aí remoendo essas coisas. O que mais importa na vida além da consciência limpa quando põe a cabeça no travesseiro e dorme sabendo que os carnês estão em dia? Nada é mais valioso que o nome limpo, não é pessoal?

E ter emprego assim estável hoje em dia é uma raridade. Para poucos. A senhora sabe, tá assim ó de menininha querendo o seu lugar. E se o Dr. Gomes não fosse um gerente sério, teria com certeza substituído toda a sua destreza por um belo par de seios, ia ou não ia auditório?

E agora, hein, dona Rita. Tá quase se aposentando, hein. Que maravilha, a vida começa agora, não começa? Claro, talvez a senhora não chegue mais a ser a primeira bailarina do Bolshoi, talvez não arranje mais um Tarcísio Meira para namorar, mas vai receber seu salário na maciota, hein, já pensou?

O que a senhora vai fazer nesses dias vazios e quietos e silenciosos, hein, dona Rita?

O que a senhora vai fazer da sua vida quando tiver que sair daquela mesa na entrada do prédio, hein?

A senhora suportaria? Suportaria ter mais nove horas para se olhar no espelho? Mais nove horas para pensar no tempo passando?

Tem medo da morte, dona Rita?

Já teve vontade de viver outra coisa?

Já teve vontade de morrer?

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