mind the gap e noodles experience

Londres é a cidade mais bem sinalizada que conheci. E os sinais são tão característicos que muitas placas viram lembrancinhas nas lojas de presentes (desses que não servem para nada). Irresistível não tirar fotos na frente das placas do underground.

São polidos, os ingleses. Não gentis, como nós, mas polidos. E de uma polidez que avisa que entre o trem e a plataforma há um perigosíssimo vão.

Mind the gap.

Mas há outros vãos. Os centímetros multiplicados ao infinito entre o judeu ortodoxo e a senhora de  burca (como se chama? o que acha das pernas despreocupadas das inglesinhas descoladas?) lado a lado no metrô. Há os vãos históricos.

Os indianos, descendentes de Shiva e da colonização inglesa, servem os cafés para outros indianos, mas também para os italianos, os franceses, os brasileiros e até para outros ingleses.

Eu, brasileira miscigenada, desconhecedora da proveniência dessa minha pele clara de sulista, me pegava classificando etnicamente  os colegas passageiros dos trens.

Mas no fim das contas, a cor da pele, a burca, os sáris ou o estado de conservação higiênica dos seus cabelos importam pouco para o dia a dia. É possível ser quem quiser em uma cidade como Londres. Porque na verdade, você não é ninguém. Mais um que pode ou não atrapalhar na fila do metrô. A única coisa que cada um espera de você, atrás de seus fones e best-sellers, é que você não fique no caminho. Que você na verdade não exista.

É o problema da multidão, já nos dizia Poe há tempo.

Mas nos momentos mais tensos, as identidades sempre se impõem.

Era nosso último dia em Londres. Estava ansiosa com a viagem, triste pelo fim da visita, das férias e daquela vida sem segundas. Pior ainda, com aquela saudade prévia típica de despedidas.

E já que a vida é mesmo muito mal escrita, chovia. Fomos comer um noodles (grande e barato, segundo Mohammad, o colega de casa do meu irmão) em Greenwich.

As lojas de noodles são sempre modestas. Comida barata, para gente sem grana, turistas assustados com as libras e estudantes. Nesse, especificamente, até as mesas eram coletivas, como um restaurante universitário.

Dividimos a mesa com um casal. Inglês. Ele, com aquela aparência acabada pelos anos de pub. Sem dentes, envelhecido, olhos tristes. A mulher que o acompanhava (não sei se irmã, filha ou esposa), com um ar arrogante de Nothing Hill. O cabelo moderno para sua idade (um chanel com franja, escovado como não o de costume para a Europa) era quase uma maneira de se impor.

Meu irmão resolveu turbinar seu noodles com mais shoyo (de uma qualidade horrível, aguado, dissolvido com sorte em água mesmo). Em cada mesa, coletiva como disse, o seu conjunto de sauce. Atendendo a pedidos, estiquei meu braço até a parte de lá da mesa para pegar os vidros. A mulher do chanel escovado, espantadíssima, puxou seus temperos para si, como uma criança na creche que tenta preservar seus lápis de cor dos colegas.

Ridículo. Mas o caso foi mais longe. Meu irmão, que já estava num dia ruim, tenso, falou o quanto aquilo era estúpido, o quanto eles eram estúpidos em fazer um papel desses.

— I’m not stupid. I’m british.

— I’m human being.

Depois de uns cinco minutos de silêncio e vigilância, tudo se acalmou um pouco. Continuamos sentados os cinco na mesma mesa, mas com um vão cultural intransponível. Nos momentos tensos, não importa quem seja em essência, é a geografia que conta.

Mind the gap.

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2 thoughts on “mind the gap e noodles experience

  1. Uma vez vi alguém dizer q ser racista em Londres limita muito as chances de ter uma vida sexual…
    Mas, como diz meu amigo: “eu contra meu irmão; eu e meu irmão contra meu pai; eu, meu irmão e meu pai contra meu vizinho […]”.
    Enfim. Hoje é meu aniversário (me dá parabéns) e acho que devíamos marcar um café bem logo para bater um papo miscigenado…
    Bjos, amiga! Boa volta à vida curitiboca! =P

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