à la recherche du temps perdu

1.

ano passado eu estava muito ocupada. mesmo. saía das aulas do mestrado, corria para casa trabalhar, depois lia os textos para o mestrado. entre uma coisa e outra dava uma força para a minha família que andava com muitos problemas. depois arranjei um trabalho como professora, que tirava minhas energias, me fazia me sentir frustrada e incapaz, sem paciência e adoeci.

então eu estava doente, no mestrado, dando aulas e revisando textos. lia apenas coisas que não me diziam muito, tendo que fazer apresentações sobre coisas que eu não dominava ou que apenas não me interessava, passava o fim de semana preparando aulas e corrigindo coisas. os domingos eram infernais porque eu sabia que segunda teria de acordar muito cedo, pegar um busão até lá longe e enfrentar 3 horas de desprezo. crianças são más.

e, como podem imaginar, odeio falar em público.

recapitulando, eu falava em público no mestrado numa avaliação, enfrentava 70 adolescentes, tinha ainda um monte de páginas de textos ruins e chatos e difíceis para ler-estudar-revisar e tudo isso doente.

não lia mais nada, nem jornais, não via muitos filmes, não saía à tarde para ver a grama crescer, nem para tomar um café despreocupado. eu não tinha tempo de passar um tempo com minha mãe, nem de passar minhas camisetas. não tinha tempo de reunir amigos em casa, ou de jogar guitar hero. não tinha tempo de ir à livraria e comprar qualquer coisa nova de alguém que eu não conhecia só porque aquilo existia no meu tempo e talvez me ajudasse a entendê-lo, ou não, não importa.

estava num dilema. e descobri há pouco tempo por quê. porque te fazem acreditar que existem apenas dois tipos de pessoas bem sucedidas no mundo: as que trabalham pelo progresso do capital e as que trabalham pelo progresso da ciência. há outras formas de vida, acredite.

achei este vídeo, de uma palestra do educador inglês Sir Ken Robinson e me foi muito esclarecedora.

2.

Outra descoberta recente foi um texto do Sêneca, Sobre a brevidade da vida. Me fez pensar em todo esse tempo de sofrimento bobo.

Nenhum homem sábio deixará de se espantar com a cegueira do espírito humano. Ninguém permite que sua propriedade seja invadida, e, havendo discórdia quanto aos limites, por menor que seja, os homens pegam em pedras e armas. No entanto, permitem que outros invadam suas vidas de tal modo que eles próprios conduzem seus invasores a isso. Não se encontra ninguém que queira dividir sua riqueza, mas a vida é distribuída entre muitos! São econômicos na preservação de seu patrimônio, mas desperdiçam o tempo, a única coisa que justificaria a avareza.

[…]

Perscruta na tua memória: quando atingiste um objetivo? O quanto de tua existência não foi retirado pelos sofrimentos sem necessidade?

Agora? Eu procuro minha vida lazer.

Anúncios

7 thoughts on “à la recherche du temps perdu

  1. Nunca me vi tirando lição de praticamente nada, mas este post me disse muito porque, bem, estou inserido num contexto bem parecido com o que lhe causou mal – e eu conheço há muito esse texto do Sêneca, que diz muito além do excerto que você postou. Não consegui ler o vídeo porque – oh – estou tipo-assim no meio da amazônia e a internet aqui é uma tragédia.

    sigo – porque posso – você no twttr. Um abraço e cumprimentos pelas descobertas.

  2. Eu li esse texto hoje, no caminho do trabalho e foi uma baita experiência. Eu ainda acredito em mestres, e na educação formal, mas precisava perceber que não me encaixo muito bem nisso tudo e foi isso que aconteceu e ainda bem que a gente encontra outros textos e pessoas e tudo mais pelo caminho.

    E quem está tipo assim no meio da amazônia?

  3. indeed. e vai ver nem é coisa de se encaixar ou não – tudo é uma questão de situação e/ou escolha e, especialmente, tudo é temporário. eu, por exemplo, saí de bh no começo do ano para enfrentar um mega desafio aqui no norte, num municipiozinho paraense. três infecções alimentares depois, já sinto que pode, sim, valer a pena.

  4. já é tão difícil lidar com as questões que surgem no ambiente no qual (achamos que) nos encaixamos…imagina quando forçamos estar naqueles que não nos dizem respeito. E tudo porque nos fazem acreditar, como vc disse, que não seremos bem sucedidos se dele não fizermos parte.
    …reconhecer onde nos encaixamos e onde não, e ter a coragem de mudar e ir atrás do que nos faz feliz, é um grande sinal de coragem, de força…e me faz sentir muito respeito.

  5. Pogresso, pogresso.
    Eu sempre escuitei falar, que o pogresso vem do trabalho.
    Então amanhã cedo, nós vai trabalhar.
    Quanto tempo nós perdeu na boemia.
    Sambando noite e dia, cortando uma rama sem parar.
    Agora, escutando o conselho da mulher.
    Amanhã vou trabalhar, se Deus quiser…
    Amanhã vou trabalhar, se Deus quiser…
    Amanhã vou trabalhar, se Deus quiser…
    Mas Deus não quer!

    Salve, Adoniram, salve, Vanessa.

    Cerveja no torto hoje, chega lá.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s