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Um livro é, sempre, uma entrega. Transformei a partitura da canção de ninar em um esboço matemático e o usei como espinha de meu livro. No fundo de Ribamar [o novo romance de Castello], posso dizer sem exagero, “toca” uma canção – embora ninguém a ouça. A estrutura de meu romance me veio, mais uma vez, de onde eu menos esperava. Aprendi, com isso, que um escritor deve, antes de tudo, escutar o mundo. Estar atento aos ruídos, falatórios, suposições. Manter-se em posição de espera e de atenção, pronto para aceitar tudo o que lhe aparece, verdadeiro, ou não. Há algo de fortemente passivo na postura do escritor. Ou bem ele se mantém aberto e disponível, ou não consegue escrever. Assim me surgiu Ribamar: como uma invasão, ou um acidente. Como uma submissão. Depois de escrevê-lo, sinto grandes dificuldades em falar na figura do “autor”. Não acredito mais nesse sujeito cheio de si, dono de suas ideias, vaidoso e arrogante, que se nomeia escritor. Um escritor não se nomeia, nem se autoriza. Ou bem a escrita o mobiliza e atinge, e ele consegue aceitá-la e ceder a sua força, ou um escritor nada é.

José Castello, no suplemento cultural Pernambuco

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