escritor, esse bicho estranho

Talvez seja porque não frequento as vernissages, as aberturas de mostras, o lançamento de catálogos de arte. Ou os eventos sobre arte contemporânea. Não sei se o incrível fenômeno que percebo nos eventos de literatura são de fato típicos da literatura. Em todo caso, é sempre a mesma coisa.

Quem vai ouvir os caras falarem são na maioria escritores iniciantes ou veteranos frustrados. Não há mais plateia, ouvi certa vez. É sempre uma reunião de protagonistas solitários sem audiência.

Os veteranos que não se sentem frustrados, geralmente os que estão por aí fazendo mil coisas e até são conhecidos pelas outras centenas de escritores da cidade (ou seja, aqueles cujo público não elegeria nem um vereador) nunca estão por lá. Não têm nada a aprender. Vivemos no romantismo ainda, na inspiração do batel soho ou dos barecos ao redor da faculdade de humanas.

Não estão lá também os que trabalham com livros. Salvo raríssimas exceções (sempre as mesmas excessões) eu nunca vejo um colega sequer nesses eventos. Tudo bem, não acontecem tantas coisas assim em Curitiba, talvez seja o não hábito. E palestras são em essência aulas. E aulas são chatas.

Vão nós, os escritores frustrados e inéditos. Os que não tem coragem de publicar o blog num livro ridículo, o que apesar da pressa talvez acreditem no trabalho e não na embriaguez démodé das musas.

Me incluo porque sou justa. Sei que o que espero é tomar consciência que a Adriana Lisboa, o Tezza e a Ana Miranda são pessoas reais. Mas vou com a expectativa da vedete, de quem cria seus gênios para (diria nosso querido Nietzsche?) justificar suas próprias falhas.

Mas nunca, jamais fiz esses típicos papelões. Porque tem um momento que a conversa vira grupo de autoajuda: — Oi, meu nome é FULANA de TAL e sou poetisa (ui) mas estou escrevendo um romance com sete personagens e assim super me identifiquei com esse seu processo criativo, porque nós, escritores temos de viver a arte o tempo todo, não é? O que você acha, Ana?

Daí você olha de perto. A insegurança, a ilusão desses caras. Tem  também os que entregam as poesias em xerox, desarticulados, tronchos como os próprios criadores, com a mente frouxa de tanta maconha, de tanta marginalidade. E passam-se os anos, e o cara sempre entra no bar na hora que chega sua comida na mesa, e você não sabe mais como recusar. Porque é ruim e deprimente todo esse papel.

Inverteu-se a lógica. Todo mundo quer a fama. E escreve-se pensando primeiro na festa de lançamento e nas entrevistas do que na linguagem. Nos amigos da roda, nos malditos cafés. Poderiam ser superbenéficos. Sei lá, imagino Mário e Oswald discutindo revoluções estéticas mesmo. Mas percebo que ao meu redor todo mundo quer mesmo é falar de si. Ninguém lê nada do outro.

Literatura virou a arte de bem estampar seu nome numa capa bonita. E chamar alguns amigos que importam pouco para receber exemplares autografados.

Por isso quem não consegue, que passa uma vida toda frustrada, anda feito vira-lata atrás de um pouco de autoafirmação.

Esse post é uma autoafirmação.

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17 thoughts on “escritor, esse bicho estranho

  1. Não sou muito de ir em tais eventos mas já flagrei muito essa coisa aí. Na maioria das vezes que abrem o microfone para “perguntas” o que menos se escuta são “colocações”. Um horrô!

  2. não serei protagonista da postagem, prefiro a voz da autora: “Literatura virou a arte de bem estampar seu nome numa capa bonita. E chamar alguns amigos que importam pouco para receber exemplares autografados.”

  3. é, realmente esse post é uma autoafirmação. Mas não sei se sou crente nessa tal nostalgia. As coisas mudaram, sempre mudam… ou não. Isso pouco importa. A vida é feita de escolhas e delas depende nossa percepção das coisas. Se escolhermos mudar as coisas mudam, e tudo fica mudo. Se não muda, tudo igual… as pessoas sempre falam.

    Acho esse tipo de comentário mais interessante quando acompanhado de uma atitude efetiva. Penso que falar ou mudar depende mais do anúncio. Td caso, isso funciona melhor como diálogo.

    1. em suma o que quis dizer é: literatura é linguagem, odeio o romantismo e acho que reuniões literárias têm servido só para uma espécie de masturbação coletiva. não há diálogo. as perguntas não são sinceras. é só um método de dizer: oi, sou vanessa rodrigues, sou artista plástica e…

      1. Isso quando não são ainda mais diretos e perguntam como publicar pela editora dos escritores em questão. Antes mesmo de terem “originais” para serem avaliados.

      2. desculpa, mas é q eu acho esse papo tão batido qto o pessoal do “oi, estou aqui… OI OI OI!!! ESTOU AQUI!”… mas felizmente, eles nesse desespero ainda fazem alguma coisa.

        reclamar é bom e eu tenho meu quinhão aqui… meu momento sucesso. eu respondo tbm pq isso foi dito né… então, se foi dito aqui e não em tal reunião de escritores frustrados, cabe resposta aqui.

        eu sou um pouco de td aqui… tanto do texto qto dos comentários… me identifico na mais linda das hipocrisias e na mais sórdida dessas verdadinhas…

        sou um tanto nostálgico e sinto falta de dialogar sobre meus escritos, mesmo q eles tenham pouco a acrescentar

        o porém é q enqto isso, qm lê qm?

        oi, oi oi…

  4. óia… complicado. eu queria chegar a um nível sadio de auto-afirmação. hehe. a gente podia fazer logo o lançamento de uma coleção inteira da geração sem auto-estima e vaidosamente esperar o ingresso de nossos nomes nos compêndio de literatura: “aí veio a geração sem auto-estima…”.

    ê visão do inferno… huaehuaea

    e guria, tô com teu livro do Gonçalo Tavares.

  5. Quando eu cheguei em ctba, achava tudo lindo, tudo novidade (olha lá o depoimento..rs). Depois fui sacando as pessoas, sempre as mesmas nos tais eventos. Comecei a ter aversão ao clima, que eu acho que está no meio musical também, além do literário. Tem muito escritor ruim presente em tudo, e alguns poucos bons escritos ausentes sempre. Fica difícil. Quem domina a roda são que precisam se auto-afirmar. Acho que os bons nem tem vontade de sair de casa…

    Amei o post. E o blog também!

  6. Literatura virou a arte de bem estampar seu nome numa capa bonita. E chamar alguns amigos que importam pouco para receber exemplares autografados.

    fantástico!

    é como diria trevisan em cartinha a um velho prosador.

  7. Todos precisam se identificar, não importa com quem. E isso dá um pouco de medo, porque de repente vejo amigos que mal sabem escrever e têm livros publicados. Fazem poesias sem palavras e se chamam neoconcretistas ou poetas visuais.

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