poética da casa

Nunca tivemos uma casa. Desde que tenho memória de mim mesma, morei em casa alugada. Não tínhamos raízes. Nunca tive uma parede que fosse mesmo uma herança. Mas não havia nisso nenhuma poeticidade. A vida provisória decorreu de dívidas estranhas de meu pai. O fato é, nunca tive uma casa.

Mas a casa da família é onde estão os seus. E quando se é criança, pouca coisa importa. Nunca senti falta de ter uma escritura.

O problema foram as portas. As casas que alugamos  por esses anos longos eram muito pequenas. E por alguma coincidência estranha os quartos nunca tinham portas. Colocávamos cortinas para que pelo menos o mínimo de privacidade fosse garantida. Mas cortinas não se trancam. Não impedem passagem, não batem.

Do mesmo modo as paredes não era sólidas. Casas velhas de madeira tomadas por cupins. As tábuas chacoalhavam com o vento. Quando tinha tempestade, a primeira vontade de minha mãe era sair dali, ir para o quintal até que a chuva passasse. Ela tem muito medo de vento. E nossa casa nunca foi firme.

No inverno,  o vento do sul entrava pelas frestas dos sarrafos. Era uma montanha de acolchoados impedindo o frio. E saber que essa tradição de casas de madeira é coisa dos colonos europeus que entendiam de neve. Acho que eles nunca sentiam frio por aqui.

De alguma maneira, essa não individualidade me permitiu ser quem eu sou hoje. Na adolescência, tive meus segredos. Meus pais não sabiam muito sobre minha vida do lado de fora da casa. Mas é que eu precisava disso, ter memórias de silêncio, da solidão do cigarro proibido na porta do colégio.

E com esses segredos, com as leituras, com os diários criei minhas portas.

Um dia, numa crise adolescente idiota, queimei meus diários.

Me arrependo tanto. Queria que aquela menina me contasse coisas. Me desse mais detalhes dessa casa inconstante e flácida que me protegeu durante a infância.

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4 thoughts on “poética da casa

  1. Me identifico muito com sua história Van. Eu perdi meu diário de infância, que tinha desde que aprendi a escrever até completar meus 12 anos. Então comecei a mudá-los constantemente para nunca mais correr o risco de perder toda a linha de minha vida. Hoje tenho guardada uma coleção de memórias. Mas parei de escrevê-los há um tempo… Até agora não sei o porquê.

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