poética da gaveta

1.

ontem foi o dia de são lucas, o santo dos médicos. foi também meu aniversário. e nessa mistura de medicina mística e o caminho universal ao redor de Rá, passei a maior parte do tempo no hospital, ajudando meu pai.

hospitais. são infotografáveis. tentei procurar alguma poesia no meio daquela loucura toda. só achei um grande vazio pragmático.

uma fila de urgências egoístas. deveria haver certa ordenação de prioridades, mas mais de perto cada tragédia era uma tragédia particular. era o espaço do homem individual, soberano diante da natureza, do meio. ser científico capaz de milagres e que não se espanta mais com a morte, ou a dor  (estava escrito numa espécie de oração antropocêntrica na parede).

meu pai estava desarmado. longe de sua concha corriqueira, esparramava seu corpo mole e entregue, assustado com a agudeza da realidade, como sua sonda pendida.

a sonda do meu pai era ele nu. no meio daquele ambiente clássico de médicos e outros seres superiores, meu pai voltava ao tempo escatológico, em que não se escondiam os próprios produtos do corpo. mas era um mostrar-se compulsório.

doutores. um deles nem nos olhou nos olhos. não pôde (poderia?) ver o tamanho do medo nos olhos do meu pai. a pressão arterial estava descontrolada, sentia, eu sei, um grande medo da morte. era um menino, com toda a ignorância e a teimosia de um menino.

foram horas de um certo pânico velado. porque não se sabia. “alguém tira esse barulho da cabeça”, ele falava, apontando, imitando o barulho.

ontem de madrugada, depois de conseguir um leito na enfermaria, deixei meu pai chorando, como minha mãe deixou um dia meu irmão menor no seu primeiro dia de aula.

eu não chorei.

2.

i. a carteirinha da loja de maçonaria de maringá de 1978

ii. um recorte de jornal de uma foto de peixe morto

iii. “o que fazer em caso de morte”, outro recorte plastificado

iv. a dedicatória que fiz para ele, no dia dos pais de 2008. dizia: “Nesta história [Big Fish], Edward tenta entender seu pai; sou feliz por entender sem nunca ter conversado abertamente sobre isso. Te amo, dia dos pais de 2008.” no verso, o telefone da minha casa.

esperava meu pai voltar de uns exames. e como toda a privacidade tinha se acabado em nossa relação (eu visto ele nu), remexi em alguns papéis. sua carteira estava comigo, fiquei curiosa. era um cara misterioso.

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4 thoughts on “poética da gaveta

  1. Ah sim… Aí faz sentido. Esqueci que ele era artista… Eu tenho um diário da 5ª série cheio de recortes que ainda dizem mto sobre mim (pq, na verdade, ainda tenho 10 anos).
    =**

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