dresscode e outras questões fundamentais

Faço todos os dias um trajeto de 40 minutos  da minha casa até meu trabalho. Atravesso o centro da cidade, corto o bairro kitsch-chic. De ônibus.

Nós, os trabalhadores desprovidos de prestações automobilísticas, mesmo todos diferentes, dividimos nosso espaço, nosso ar, geralmente com uma cordialidade silenciosa. E eu, talvez a mais curiosa entre os passageiros, observo.

Escolho o banco single no ponto final, tenho esse privilégio da privacidade. Mas em geral, há cordialidade e a saudável indiferença típica.  Desde que comprei meus fones bem vedados, coloquei uma trilha sonora saudável nas minhas orelhas. Nem tão alto para que fique surda aos 40, mas nem tão baixo ao ponto de escutar as conversas. Crio uma atmosfera própria ao redor da minha cabeça. Manipulo o mesmo ar comunitário de uma forma só minha. É dentro da minha cabeça que a Bjork canta com a PJ Harvey. Ninguém sabe que são figurantes de um filme particular editado na minha memória.

Hoje eu ouvia Nico e reparava na roupa das meninas. As saias depois dos joelhos das empregadas domésticas protestantes (“ontem dormiram até às 9 e reclamaram que não tinha comprado o pão”), o tailleur-uniforme das atendentes do hospital (meia-calça puída e scarpins batidos simulando uma elegância que não combina com a bolsa do Snoopy), o excesso de argolas e sombras prateadas das telemarqueteiras da TIM (tipo, bati minha meta e a SP nem marcou o MF na minha cota), os terninhos das recepcionistas, a bota plataforma de uma marca de surf por cima da calça skinny, os casacos de lã, as sacolas com lanches e outras provisões para o dia-inteiro. A camisa xadrez de mim mesma me achando espertona ouvindo Nico, lendo Barthes e espionando a vida alheia.

Todo mundo acordou hoje umas 6 horas da manhã e ainda com sono lavaram o rosto para animar. Não se animaram. Talvez houvesse casos. Um interesse platônico pelo colega de baia, a primeira semana na firma nova, o dia seguinte à reunião quando se ouviu um elogio disfarçado (mas já é, oras, algum reconhecimento).

Mas a maioria, arrisco, estava consonante. Indo por inércia ao empregador que lhe dá o dinheiro para as contas, irritados com os pequenos poderes típicos dos chefes imediatos, cansados da semana sem feriado, a frente fria acinzentando tudo lá fora.

E é por tudo isso — pelo excesso de falta de ânimo — que odeio esse ambiente. Tenho uma repulsa mesmo em registrar no ponto eletrônico o tempo que vendi muito barato. No final do mês, a lista das horas que ainda devo.

Devo?

Anúncios

3 thoughts on “dresscode e outras questões fundamentais

  1. Vou quase ter de concordar… Por isso que meu gosto musical é tão pedreiro (mas por isso tb roubaram minha carteira e queriam R$ 50 pra devolver).
    Mas a pergunta é: vc tem o s/z? O Mauro disse q talvez vc tenha. Me empresta se tiver? Sabia que vale 100 pila na estante virtual?
    Desculpe usar os comentários do blog como e-mail… pode apagar esse comentário… haha

    Ah… Não pude deixar de ser egocêntrica e pensar: “o que será que a van pensaria das minhas roupas no ônibus? professorinha?”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s