Ceci n’est pas

Isso aqui não é mais um comentário sobre a guerra no Rio. Porque moro em Curitiba. E Curitiba tem triagem seletiva como Paris. Em Curitiba não tem morro. Não tem savana pela favela. Curitiba não tem Rocinha.

Curitiba é mais Paris que Rio.  Curitiba é melhor que Paris porque é Brasil.

Mas só o melhor do Brasil. Porque Curitiba é sul e sul é Europa. Sul é melhor que São Paulo. E São Paulo é melhor que o resto, que o norte, que o Rio. Curitiba é Brasil, mas nem parece.

E, ademais, nunca fui ao Rio. Acho que ia gostar de ver a Biblioteca Nacional, sentar na mesa do Drummond (parece que é proibido).

Rio para mim é malandro de sapato branco cantando Noel. É gente ouvindo bossa nova em inglês num loft climatizado.

Rio é cool. É o que vende na Osklen. É o morro lindo brilhando à noite longe, longe.

Rio é Nina Becker. É Amarante.

Rio é Los Hermanos cantando samba com letra inteligente.

Mas Rio é Rio.

E Curitiba é Paris.

Em Curitiba, se vota sempre na direita. As pessoas leem muito mais.  Em Curitiba, Trevisan é celebridade. E o Leminski também.

Por isso não vou comentar nada. Porque moro em Curitiba, que é o Sul.

E Sul é só asfalto. Não tem problema, não.

Isso não é problema meu.

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Rio pela carioca Bruna Beber

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Rio pela carioca Cláudia Roquette-Pinto

Sitio

O morro está pegando fogo.
O ar incômodo, grosso,
faz do menor movimento um esforço,
como andar sob outra atmosfera,
entre panos úmidos, mudos,
num caldo sujo de claras em neve.
Os carros, no viaduto,
engatam sua centopeia:
olhos acesos, suor de diesel,
ruído motor, desespero surdo.
O sol devia estar se pondo, agora
_ mas como confirmar sua trajetória
debaixo desta cúpula de pó,
este céu invertido?
Olhar o mar não traz nenhum consolo
(se ele é um cachorro imenso, trêmulo,
vomitando uma espuma de bile,
e vem acabar de morrer na nossa porta).
Uma penugem antagonista
deitou nas folhas dos crisântemos
e vai escurecendo, dia a dia,
os olhos das margaridas,
o coração das rosas.
De madrugada,
muda na caixa refrigerada,
a carga de agulhas cai queimando
tímpanos, pálpebras:
O menino brincando na varanda.
Dizem que ele não percebeu.
De que outro modo poderia ainda
ter virado o rosto: – Pai!
acho que um bicho me mordeu! assim
que a bala varou sua cabeça?

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Rio pelo carioca André Dahmer.

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4 thoughts on “Ceci n’est pas

  1. ‘Aprendemos uma coisa e depois outra, e aquilo que aprendemos quase nos possui. Não somos nós que o possuímos, antes pelo contrário, aquilo de que aparentemente nos apoderamos apodera-se então de nós.’ Robert Walser.

    … foi assim que se passou…{concordo com o Ed}

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