o natal

Dessa vez teve eu na cozinha descolando a pele do pobre peru, besuntando-o pelo lado de dentro com manteiga e cheiro verde.

Teve eu redormindo na casa onde morei por uns seis anos com medo do escuro deixando a luz da cozinha acesa e uma frestinha confortável.

A televisão o tempo todinho ligada. Uma fuga, sempre entendi.

Teve meu pai contando umas coisas. Minha mãe contando outras.

Teve eu na sala cochilando entre sons de um filme sobre Jesus e o barulho dos pratos sendo lavados na cozinha.

Teve o limoeiro enfeitado com luzezinhas coloridas. E um pinheirinho de plástico com poucos enfeites no canto da sala.

Teve o momento da meia-noite. Meu irmão jogando videogame com um amigo. Uns cumprimentos meio sonolentos e uma mesa com muita, muita, muita comida que sobraria.

Teve eu pensando que afinal de contas aquela é minha família. É desses limites que parti, daquela especificidade, daquela espacialidade. Porque há num tempo ficcional a possibilidade infinita de ser o que quiser. Mas nascer já é um aniquilamento de possibilidades, vindo de certo de um acúmulo de restrições até chegar à própria vida.

Entendi que isso não é ruim. Nem bom.

Apenas é.

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