A pequena morte

Ou monólogo para a cena inicial de uma pulp fiction

Quando entrei naquele carro nem sei em que pensava, não premeditei. Não premeditei nada. Tinha um desejo brega como a palavra desejo, como a palavra volúpia, como tórrida, como quente. Um desejo cafona desses de lençol de seda, fontes no pátio. Um desejo motel de adultério mesmo. Obviamente que cumpri com minha função provocadora, rindo alto, fumando. Contemplativa, ouvindo a música, olhando nos olhos, e depois preocupada com o lugar público e com o álcool afastando meu juízo.

Porra, mas afinal por que é que veio? Fui. Acho que ainda tinha um pingo de moral quando tirei o casaco. E tudo depois se acabou, como a noite se dissolvendo na janela pequena da cozinha da casa daquela cretina. E eu tive outra escolha?

Quisera o remorso fosse feito apenas de pele e língua daquele sofá. Daria a minha alma um pouco torta, a alma gauche se fosse poeta a alma vagabunda que não vale nada eu daria minha alma que não presta por um remorso feito de gozo.

Dizia que quando tirei o casaco ainda me restava um pouco de moral. Eu devia ter saído correndo dali, mas resolvi arriscar, resolvi ter um passado só meu, um segredo. Entenda que depois de tanto tempo acordando e jantando e saindo juntos eu devia ter um segredo, eu precisava de um passado impuro.

Mas agora devo guardá-lo. O grande segredo te complicaria. E me desculpe por te falar isso tudo mas como disse preciso que o remorso seja feito apenas de pecados simples. Acredito, contra todas as teorias de minha mãe cristã, que existe sim uma hierarquia ou graus de pecador. Esmagar uma mosca, mentir ou comer duas vezes a sobremesa não é tão grave quanto trepar durante duas horas na casa de um cara outro que não o seu que provavelmente nunca seria ou será que nunca te quis nem vai querer e que talvez você também não queira. E isso tudo não é o mesmo que roubar a merenda das criancinhas do orfanato. Não é o mesmo que matar.

Quando tirei o casaco e a blusa e apaguei a luz como uma virgem e liguei o som e tomei todo o uísque e tirei a saia e a meia-calça e finalmente deitei na cama que estava arrumada porque ele sim premeditara o encontro eu fora de ordem deitei e desmanchei cada canto daquele lençol masculino o ambiente sem minhas cortinas. Sentia falta mesmo era disso: de um lugar não sem você, mas sem mim.

Não é o caso de valorar, de comparar. Foi bom e diferente. Uma força bruta mais pesada, uns movimentos sem controle sem amor sobretudo sem amor. Mas havia uma cumplicidade bonita até. Senti no beijo, nas mãos na minha nuca, na forma como me olhava, ele me olhava sereno apesar de sentir bem próximo e concreto sua vontade. Essa vontade estranha de continuar ritmado e chegar logo no fim que podia durar para sempre. Desculpe, não devia falar isso, mas entenda, era esse o fim, o fim biológico, la petite mort.

Repito, não premeditei nada, apesar da aparência, eu queria mas não até o fim não esse fim, apenas o fim como disse apenas o fim, da morte apenas la petite. Será que um dia vai me entender? Será que eu perdoaria?

Ainda feita daquele tempo, ainda diria suja diria apanhada, ainda molhada daquela noite eu senti sua falta. Ora, não me ache dissimulada. Vagabunda. Puta não sente remorso e não era, era saudade. Porque ali já tinha acabado. E talvez tudo com você, sim, amor da minha vida, sim, a eternidade, talvez com você também, pelo menos em mim estava um pouco destruído.

[ESTAMPIDO DE DOIS TIROS]

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