de cor

Há certo tempo (um tempo curto) tenho me interessado por fotografia. Acho que foi Cartier-Bresson que me apareceu numa época em que quase me converti ao budismo e à fenomenologia. Depois entendi que tudo estava relacionado à consciência. Não essa invenção racionalista, mas a mente desperta. Ainda que o fotógrafo fique de plantão esperando que alguma coisa mágica aconteça ali, do outro lado de sua lente, é preciso que permaneça atento. Isto me fascina: enquadrar esteticamente a realidade, descolar um pedaço do mundo, como quem mostra um segredo que esteve o tempo todo disponível para qualquer um.

É um mundo inteiro novo que ainda me assusta. Às vezes acho que não terei tempo de conhecer os grandes fotógrafos, ter as referências todas como tenho acumulados na memória os nomes dos grandes escritores, os que são importantes para mim. Mas a vontade de me tornar invisível como Rai, o fotógrafo narrador de O chão que ela pisa (Salman Rushdie), tem me incentivado.

Fotografias, na minha história familiar, sempre foi apenas um aparato externo da memória, um catalisador. Não havia preocupação de fazer “boas” fotos. Era sempre para registrar os aniversários (ainda me sinto melancólica com a explicação de que meu pai não estava no meu primeiro aniversário) e eventos em geral, ou para provar que sim, estiveram lá (em frente ao palácio avenida decorado de natal ou da catedral cônica de Maringá). E isso tudo substituía as histórias familiares, como as que meu avô ainda conta. Não havia o momento da fogueira sagrada, em que se explicavam para as novíssimas gerações como o mundo era no tempo de antes. Simples, pegue a caixa de fotos.

Quando a literatura começou a ser uma arte escrita, pensavam que isso acabaria com a memória. Os poetas não decoravam mais seus textos, não declamavam para seus ouvintes, que, também atentos, registravam tudo pelas orelhas (um registro mais sutil) e organizavam as informações a cada nova palavra ouvida. Não era possível voltar à linha anterior, precisavam também de memória.

A expressão “de cor” se relaciona ao coração. Lembramos de cor. Das coisas que ficam no coração. Talvez isso explique um pouco essa minha sensação momentânea de vazio de palavras e ideias. Tenho trabalhado tanto que nada tem se retido no coração. E sem memória, como farei um bom texto?

“Imagens são palavras que nos faltaram. — Manoel de Barros. “

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s