boîte-en-valise

Fui cleptomaníaca por uns quatro meses. Tinha sete, oito anos. Nunca nada de valor, sempre um pouco de sucata misturada a algumas lembranças. Uma vez, peguei uns três frascos de perfume na casa da minha prima. Estavam vazios. Alguma coisa naqueles objetos ordinários me fascinaram. Me deram uma impressão de que eu também poderia ter uns tesouros. O perfume tinha acabado, mas ficaram os frascos, materiais, como um monumento. Ninguém se perfuma para ficar mais triste.

Minha mãe descobriu, me deu uma bronca e me fez passar pelo ritual constrangedor de devolvê-los.

Outro dia, eu entrei no escritório da oficina onde meu pai trabalhava (morávamos numa casa no mesmo quintal que a oficina). Peguei um bloco de notas, sei lá, alguma coisa dessas burocráticas, com papel carbono e cheirando a thinner (ou outra substância forte, potencialmente tóxica, masculina).

Coloquei o bloco atrás da minha cama. Meu pai descobriu, me deu uma bronca, levou tudo de volta.

A mania passou de repente.

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