O peso de Mariana

Porque era imagem, faltava-lhe a consistência da vida real, a de bons personagens. Ser isto, um vazio bidimensional para si mesma, irremediavelmente invertida, um mistério indecifrável que anulava qualquer palavra ou elogio manso de Ricardo.

O problema de Mariana começou quando se deu conta de que nunca saberia o que era. Que mais íntima era a xícara de café, a cadeira de balanço, qualquer coisa que não fosse ligada anatomicamente a sua existência.

Não sabendo por ela mesma que espaço ocupava no mundo, que luz emanava de seu corpo ou qual era seu cheiro, Mariana sentia-se desconfortável em todos os lugares. Insegura por ser obrigada a carregar aquilo que nunca saberia, uma massa de carne e ossos e vísceras e nervos, 70 quilos de uma carcaça frágil e disforme, ela foi nutrindo uma timidez doentia até parar de sair completamente de casa.

Mas aos poucos, as paredes daquele apartamento pressionaram Mariana, como se o concreto e o látex, como se as ferragens e os velhos encanamentos de bronze se amalgamassem à sua carne, e seu corpo, já fora da proporção desde muito tempo antes, passasse a insuportável. O peso daquela vida restrita esmagava sua coluna, esmigalhava seus nervos. E o que antes era uma simples incompreensão dos movimentos, transformou-se numa doentia paralisia.

Não adiantou quebrar as janelas, abrir paredes. Era preciso que saísse dali, correndo como quem foge do cativeiro. Mas o lugar agora se confundia com sua própria vida inalcançável.

Lembrou-se, então, de Rodin. E entendeu de que se tratam as tediosas estátuas humanas. De que falam os escultores de homens. E nessa epifania tola, cogitou mergulhar em uma banheira com gesso fresco, esculpir-se ao redor de si mesma, criar um simulacro do seu corpo.

Mas não adiantaria. O objeto feito de sua forma lhe permitiria, é certo, medir seu tamanho em relação à casa, seu corpo em relação ao mundo. No entanto, Mariana se deu conta de que o peso que sentia era o peso do de dentro, que não era maciça como o mármore daquelas esculturas, mas preenchida de pequenos vazios e cicatrizes, espaços escuros onde circulavam um ar de outro tempo, carregado de uma memória estagnada e choca. Não era a carne que lhe pesava. Nem a estrutura dos ossos. Era o ar. O vazio, o espaço entre as vísceras, as ranhuras da memória. O ar louco naquele espaço escuro e pequeno, que clamava insano por um chance de sair dali, como queria Mariana sair de si mesma,  daquela casa, se desvencilhar do seu passado e das obrigações que acumulara por conta dele.

De olhos fechados, Mariana respirou fundo. Preencheu de ar novo seu pulmão e todas as células, preencheu seu corpo com aquele ar gelado de junho, o ar mais recente, o ar de hoje e começou então a perfurar seu corpo. Um a um os ocos e reentrâncias. A faca molhada do sangue do abdômen invadia os espaços do ventre, os vãos das costelas, a pele entre os dedos, a garganta. E aos poucos, o sangue foi tomando conta da cama, encharcando os lençóis e o tapete, e Mariana, muito mais leve, livre de um bilhão de compromissos, afastava-se daquele corpo tenso e responsável, os olhos fechando delicados. A dor era os ares correndo sem cuidado, era a memória escapando por cada buraco, era a morte diminuindo seu peso e tamanho.

Era ela que desaparecia.

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