telemaquia

Estive tão preocupada de mim mesma que não me lembrei que semana passada, enquanto trocava o avatar do Facebook pela foto do David Bowie, em algum lugar perto daqui celebravam a missa do sétimo dia do meu avô materno.

Viveu até os 93 anos. Não sei muito da vida dele. Casou sem amor, cuidou bem dos sete filhos, criou uma neta. Ele cheirava à loção capilar e à perfume feminino do avon.

Talvez para ele, na UTI por três dias, a vida lhe tenha passado pelos olhos. Uma longa vida sem muita emoção.

Mas ontem me veio uma imagem. De uma vida sem misticismo. Quarenta e cinco minutos antes de morrer, ela procuraria desesperadamente o celular na bolsa, perderia a ligação. O expresso seria servido, ela leria todos os arquivos compartilhados no Google Reader. Compartilharia resenhas literárias e fotografias. Pagaria pelo café e andaria depressa. Dez minutos antes de morrer, ela estaria na fila do banco, olhando o relógio e só pedindo que o tempo passasse mais rápido.

Sabe o que é para mim o mais difícil em velórios? Os beijos não retribuídos que dão nos mortos.

Telêmaco da Silva Carneiro (1918-2011)

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