entrelugar #1

Criei uma superstição de nunca mais chamar nada de “projeto” e de tentar manter para mim mesma a maior parte das ideias. Há quem, é claro, sempre lerá cada linha em-progresso. Mas são aqueles que leem coisas mais graves, como os dias em que só tem nuvens baixas por perto. Mas semana que vem terei de mostrar a outros 19 oficineiros qualé do romance que estou fazendo. É isto:

 

Talvez a espera seja pelo desejo e de dentro dela surja não um filho, mas um homem inteiro, aquele que tocará o avesso de sua nuca, que soprará a raiz de seus pelos, e vai lamber o lado de dentro de seus seios. E ele a excitará apenas com o calor de seu corpo, que é o dela ainda. Uma segunda camada de sangue sobre o emaranhado de veias, a vertigem de quem goza correndo em dobro por dentro da pele. Em vez de uma criança, talvez ela esteja criando um tipo específico de luxúria.

 

Talvez ela esteja possuída por um sedutor demônio silencioso. E a besta, feita de carne sua, aos poucos tomará conta de seus movimentos, preencherá de amargura e autopiedade os vãos inertes de sua cabeça. Acenderá as memórias de perdas, as saudades vão se tornar lâminas perpendiculares em movimento. Lembranças muito nítidas de despedidas, todos os homens que nunca a desejaram. Sangrará espessa toda memória de derrota e ela vai desejar morte, a própria morte como vitória contra a fera.

 

Talvez ela esteja morrendo. E em vez de vida, ela seja uma ininterrupta fábrica de finais. E toda a juventude que resta e a que teve e a que não viveu esteja aos poucos escorrendo para o meio do corpo, se acumulando na barriga, que cresce de possibilidades assassinadas. E o parto que virá em breve não será uma adição no mundo, mas um amputamento de dias. Sairia da maternidade mutilada para sempre.

 

O que aquilo não pode ser é um filho.

 

 

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5 thoughts on “entrelugar #1

  1. imagem após imagem, e então sobre outra imagem que está sob aquela que vem depois.
    foda, Van.
    isso tem o que me fascina nos teus textos: verdade. sempre acredito piamente naquilo que você escreve.
    as imagens são fortes, são cruas, sem frescura – e funcionais, muito funcionais. são o esqueleto. são elas que fazem a gente sentir o que você escreve. verdade.

    você junta fotografia e literatura: imagens muito bem articuladas e descritas formando teu texto.

    sei lá, é poesia.
    é foda.

  2. Demais. Quero saber quando é o lançamento. E assino embaixo do que escreveu o Leandro. E acrescento que suas reflexões sobre o fazer literário merecem mais posts. Gosto muito tb. Dá até pra ver o texto sendo construído, com as escolhas e negações que escrever implicam.

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