Bartolomeu Campos de Queirós

Bartolomeu Campos de Queirós eu conheci na faculdade de Letras, na disciplina de um grande homem (e artista, e educador, e pensador) que é o Paulo Venturelli.

Seguem alguns trechos de suas palavras no Paiol Literário (transcritas pacientemente pela equipe do Jornal Rascunho).

Para que eu não me esqueça.

“Quando a minha mãe morreu, eu tinha seis para sete anos. Ela ficou doente por muitos anos. Eu sempre a conheci um pouco doente. Minha mãe cantava muito bonito, ela era soprano. Quando a dor era muito forte, quando a dor pesava muito, sabíamos que a morfina não era suficiente, a minha mãe cantava. Ela cantava umas cantigas de Carlos Gomes. A voz dela atravessava a casa e o quintal. Então, a gente sabia que ela estava com muita dor. Outro dia, estava pensando que eu também, quando dói muito, escrevo.”

” Hoje, chego à conclusão de que escrevo porque quero dizer umas coisas e acho a palavra oral muito perigosa. Escrever é mais fácil do que falar. Quando escrevo e não gosto do texto, eu o rasgo. Jogo fora, apago, deleto, sumo com aquilo. Mas quando falo uma coisa errada, não recolho a palavra nunca mais. Isso me incomoda muito. Sou extremamente silencioso em minha natureza. Tenho muito medo da palavra oral. Sinto muitas vezes que as palavras me ferem ou eu firo alguém com essa palavra. Não recolho nunca mais essa palavra que cai no ouvido do outro. Talvez escreva por medo da fala.”

“Um dia, pensei: por que você não pensa em uma coisa que nunca pensou? E tinha o lago e sempre vinha um peixe e botava a cabeça do lado de fora. Havia várias gaivotas que mergulhavam no lago e tornavam a sair. Comecei a olhar aquilo e a pensar que cada coisa tinha um lugar. Se o peixe saísse fora da água, morreria afogado no ar. Mas se a gaivota ficasse dentro da água, morreria afogada. Comecei a olhar os dois elementos da natureza e descobri uma coisa que achei bonita: tanto o peixe quanto o pássaro não deixa rastro por onde passa. Não ficam caminhos. Ele chega, se instala naquele lugar e todo vazio é caminho. ”

“Nascer é um ato extremamente arbitrário. Não fui consultado se queria nascer e isso me pesa muito. Ninguém me perguntou se eu queria nascer, depois não escolhi nem mãe nem pai. Não escolhi o país, nem o idioma que queria falar, nem a cor que queria ter. Ninguém me perguntou nada. É um dos fatos mais arbitrários do mundo. Escrevo neste livro (Vermelho amargo) que a dor do parto é também de quem nasce.”

“Hoje, estamos com muita gente encontrando a verdade. Quando uma pessoa encontra a verdade, a única coisa que ela adquire é a impossibilidade de escutar o outro. Ela só fala, não escuta mais. Quem encontra a verdade só fala.”

“Toda memória é ficcional. É um pedaço da memória com mais um pedaço da fantasia. A fantasia é o que temos de mais real dentro de nós. A fantasia é a minha verdade mais profunda. A fantasia é aquilo que não conto para ninguém, só para as pessoas que amo muito. Ela é tão verdadeira que quando vou contar essa fantasia, faço uma metáfora para protegê-la. Pois a fantasia é o que tenho de mais profundo dentro de mim. É o meu real mais absoluto. Não existe uma memória pura, toda memória é ficcional.”

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