a literatura na era da reprodutibilidade técnica

Semana passada, duas notícias a respeito de literatura e mercado editorial me chamaram atenção. Uma falava da bilionária cifra que o governo gastou em compras com as editoras de didáticos. A outra é a ótima reportagem de Raquel Cozer sobre a superprodução de livros e os problemas que isso acarreta para as editoras e livrarias e etc.

E ambas me levaram a pensar a respeito da arte no meio disso tudo.

Eu trabalho desde o começo da faculdade em editoras, em editoras de material didático, principalmente. E aprendi a tratar livros e obras simbólicas similares como mercadoria, pelo menos no horário comercial.

Um dia visitei a gigantesca gráfica da empresa onde trabalhei. Uma indústria de livros. Barulhenta, com operários que trabalham muitíssimo conferindo as rotativas japonesas gigantes, que não podem parar jamais, grandes esteiras reproduzindo milhares de páginas por minuto, construindo livros a que a maioria dos operadores dificilmente terão acesso (principalmente porque se tratavam de apostilas dos colégios particulares conveniados, caríssimos). O velho trabalho alienado. Uma fábrica típica, assim, como no século XIX.

Vendo assim, ali tão de perto, sentindo o cheiro da tinta e o barulho insuportável das engrenagens com um crachá da mesma empresa no peito é bem difícil não pensar em livros como mercadoria.

Porque eles são. Você chega na loja, escolhe, passa no caixa e leva pra casa. Uma coisa que consegue levar para todos os lugares, real, concreto, com cheiro de novo. A capa bonita. As cores e o título atraentes. Um objeto, um brinquedo, um fetiche. Se quiser, pode comprar dois. Dar um exemplar igual para sua amiga. Dois livros iguaizinhos, o mesmo livro, feito provavelmente no mesmo curto espaço de tempo exigido pelo tal mercado.  Eis uma discussão que começou lá com Gutenberg.

Talvez você chegue na livraria já sabendo o que comprar. Viu a notícia sobre aquele autor americano fantástico redescoberto em quase todos os jornais. Ou tenta escolher algum assim meio aleatório. Talvez você perceba que coincidentemente as notícias e os livros que ficam ali, na mesa de destaque, são da mesma editora. E que muitas pessoas inteligentes têm lido coisas parecidas, olha só, da mesma editora. Coincidentemente, ao mesmo tempo.

Eu acho mesmo promissor esse crescimento editorial no Brasil. Percebo que muitos autores novos têm podido trabalhar apenas com seus livros e em funções que não se distanciam muito do seu ofício. Também acho incrível que as editoras se profissionalizem cada vez mais. De todo modo, trabalho com isso, gosto de saber que esse “mercado” existe. Não sou ingênua em acreditar que isso um dia mude. Esse é nosso mundo, dependemos todos de dinheiro e estamos sim à mercê de grandes movimentos e controles de ideias.

Mas em todo caso, acho bom pensar também na arte literária no meio de tudo isso, de todas essas regras. A gente não precisa boicotar a Zara só porque os caras reaças da Band denunciaram. A gente fica feliz em saber que coisas assim sejam denunciadas, mas a gente não precisa todo mundo ao mesmo tempo pensar a mesma coisa só porque passou na tevê. A gente não precisa ler a mesma coisa só porque aquela grande editora fodona faz um hype. A gente fica feliz em saber que tanta coisa boa tem sido tão bem traduzida e tantos caras novos do país têm feito bons livros e tido boa divulgação e tudo mais. Mas a gente devia tentar ouvir o que está acontecendo do lado de lá também, nas bordas. Entender em que tempo temos vivido, entender a escritura desses dias. Na diversidade das coisas.

A institucionalização é importante para qualquer arte. Pode ser o selo da grande editora na capa do seu romance ou a exposição individual naquela galeria ou uma boa turnê para o concerto. A garantia do filtro, a chancela dos especialistas, a boa recomendação assinada. Todos os artistas passam por isso, precisam disso, das críticas, dos eventos. Precisam do editor, do trabalho das outras pessoas. Precisam do curador, do pesquisador. Mas isso só depois, só no final. Antes, anos antes, aquele cara tentou traduzir seu pequeno ponto de vista diante do pequeno ponto de onde vê um pedaço do mundo. E seria uma pena se de repente todas essas versões dos fragmentos do mundo se parecessem, sei lá, como se parecem as fotografias de Instagram.

(um post inútil e cumulativo porque todo mundo tem de dar opinião hoje em dia)

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2 thoughts on “a literatura na era da reprodutibilidade técnica

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