ruído/mm

Em 2009 fiz uns textos ao som de Ruído/mm pra Mojo Books.

Essa republicação é para comemorar o lançamento do disco novo, Introdução à cortina do sótão. O disco é muito lindo. Poucas coisas me emocionam assim. Podem baixá-lo aqui.

ruído/mm
A PRAIA

Se lembra da música de antes, do seu pai preparando o leite da manhã, a janela da cozinha borrada do quente de dentro, o sol fraco com gosto de domingo, os desenhos da tevê, a mãe ainda dormindo, do prazer de estar protegido e sozinho na sala, do sofá enorme, do pijama de algodão com foguetes e das meias de lã. O frio confortável, o sono permitido. O sol se erguendo lento, os dedos gelados do suor frio da janela de inverno. A poesia inconsciente feita instantânea sumindo quando sumia o frio, apagado pela luz suave de fora. O que esperaria naquela época? O amor era o leite quente, a mãe enrolada nos cobertores, o pai voltando da banca com o jornal, as palavras cruzadas e o almanaque da Disney.Se lembra dos livros da adolescência, dos planos para as viagens beatnik de bicicleta que planejava com João, por quem se apaixonou e sofreu por dois dias até entender que existiam muitos amores diferentes na vida. Do depois da escola, jogar futebol na rua, explorar umas construções abandonadas, da tatuagem aos 14 anos.Se lembra da Renata sentada no seu lado na festa do colégio, as pernas lindas e absolutamente macias de se ver, do conforto de estar ali do lado, da ansiedade e da angústia de estar ali naquela cadeira, do Purple rain, do beijo assustado. Do primeiro copo de uísque, do corte na testa depois de bater com a cara na pia do banheiro, dos banhos sempre acompanhados de um amor vazio por mulheres altas da televisão.Se lembra das aulas de guitarra, dos planos de tocar no Maracanã como o Queen, da vontade de construir uma máquina do tempo e beber com os caras do Doors, de tomar ácido sem camiseta, de transar com quatro mulheres ao mesmo tempo. Ah, os anos 60!

Se lembra de Mariana, doce, no balcão da farmácia, perguntando mais alguma coisa senhor, sim, seu telefone, vermelha de vergonha, o encontro no café da frente, as conversas sobre o I Ching, sobre o nome dos doces, sobre Marinetti, sobre os Beatles, sobre tem um show lindo hoje, ela disse, quer ir?

Se lembra do show, o amor nascendo, das cervejas, ela dançando tão ali mergulhada na música, dos tênis na porta, das cadeiras, do sofá, do coração dela descontrolado como seus braços descontrolados, como os beijos descontrolados, quase raiva, quase agressiva aquela vontade de cama. Era o mesmo sol da infância despertando o casal provisório atrás da janela gelada.

Se lembra da Valentina entrando enquanto Alice saía de Mariana. Se lembra do amor deslocado, o casamento acabando, a impaciência. Mariana chorando do outro lado, ela devia estar chorando.

O amor amornado pelo sol suave de inverno.

* Texto originalmente publicado em http://www.mojobooks.com.br
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