No deserto dos tártaros

O apego é a causa do sofrimento, ouvi uma vez de um líder budista.

O apego às identidades, àquilo de que supomos sermos feitos é o que nos tolhe a liberdade.

A expectativa é talvez a maneira mais silenciosa de deixar de viver.

Me encontro num momento desses. Em que já não posso planejar muito mais que uma semana por vez. Não posso me matricular num curso de língua ou nas aulas de pilates que a irmã da minha amiga ofereceu há alguns dias. Já não vale mais a pena pintar aquela porta de verde, nem tirar as medidas das janelas. Porque já não haverá muito tempo de minha família aqui nesta casa. Estamos de mudança.

E esse estado de provisório é, percebo quando me rompe uma lucidez fugaz, apenas mental. Quero dizer, se não soubesse que daqui um mês eu estarei morando em outro estado, se já não tivesse planejando todos os meus passos, decidindo o que levo o que dispenso, se ainda não me imaginasse pegando o metrô em direção a um trabalho qualquer, se já não me imaginasse longe dessa sala espaçosa, eu levaria a vida calmamente, como sempre. Mas porque já vislumbro tudo isso num futuro ainda incerto, eu deixo de estar aqui e faço viagens diárias a esse lugar que ainda conheço pouco. Abandono minha casa e meus dias. Fico ansiosa.

Portanto, tudo que falarei a partir daqui a respeito dessa obra incrível de Dino Buzzati está, é claro, filtrado por minha condição, digamos, favorável de entender o sentimento de um homem que passa a vida num forte inútil, numa fronteira monótona e pacífica, esperando por um momento de glória bélica que não chega.

Para mim, o que ficou desse romance foi a destreza como esse sentimento de expectativa e monotonia é retratado. E também a luz jogada sobre inércia e o apego com que nos prendemos ao todo-dia. Mas é principalmente da diferença entre a vida real e a esperada, ou ainda, da impossibilidade de se chegar ao realmente real, que a obra trata. A percepção é sempre refém dessa nossa incapacidade, da nossa expectativa, da nossa imaginação. A realidade se detém diante da nossa ficção.

Pois ainda jovem, o tenente Drogo espera ansioso pelo momento em que chegará ao grande forte do deserto dos tártaros, antevendo as glórias heroicas daqueles que de fato lutam na guerra e não passam a vida nos trabalhos burocráticos do exército. Enquanto há mistério ali, Drogo permanece encantado com o forte, ainda que passadas algumas semanas já tenha se dado conta de que a fronteira que guardará é aterrorizantemente pacífica.

Conhece, o jovem tenente, os oficiais mais velhos, que entregaram por resignação suas vidas ao lugar. Mas para além disso, foi com a esperança de não ser qualquer um, de ter uma chance de ser alguém destacado, que esperam ansiosos pela guerra dia após dia, semelhantes em tudo todos eles.

Então vem esta outra questão: a da vontade que temos de nos destacar. De fugir de qualquer forma de uma vida comum, da existência anulável. Do esquecimento.

Com o tédio de alguns anos (quatro anos, que passam com a ligeireza de um vazamento) a cidade pareceu a Drogo a solução. E ficava então sonhando com o dia em que reveria todos seus amigos, que dançaria e beberia com as garotas, que retornaria a casa familiar.

A volta, é claro, decepciona à mesma proporção como foi idealizada. E Drogo encontra seus amigos já adultos, com suas ocupações e indiferenças. Nem mesmo Maria estava como imaginava. Perdera os encantos dos anos anteriores, tornara-se uma adulta chata que só pensava nas questões de família.

Me emocionei, particularmente, quando Drogo percebeu que não fazia mais parte daquela casa da infância, que sua presença ali já não importava tanto quanto antes. Acho que todos nós que já saímos de casa sabemos como é isto:

Antigamente seus passos chegavam-lhe no sono como um chamado. Todos os demais ruídos da noite, ainda que muito mais fortes, não eram suficientes para acordá-la, nem os carros rua abaixo, nem o choro de uma criança, nem os latidos dos cães, nem as corujas, nem a persiana batendo, nem o vento pelos beirais, nem a chuva ou o estalo dos móveis. Somente o passo dele a acordava, não porque fosse barulhento (Giovanni, aliás, andava na ponta dos pés). Sem nenhuma razão especial, apenas porque ele era seu filho.

Mas agora não acontecia mais nada disso. Agora ele havia cumprimentado a mãe como antigamente, com a mesma inflexão de voz, certo de que com o ruído familiar de seus passos ela acordaria. Pelo contrário, ninguém lhe respondera, além do rodar da longínqua carruagem. “Uma besteira”, pensou, “uma ridícula coincidência, podia mesmo acontecer”. No entanto, restava-lhe, enquanto se dispunha a deitar-se na cama, uma impressão amarga, como se o afeto de outrora tivesse sido embaciado, como se entre ambos o tempo e a distância tivessem lentamente estendido um véu de separação.

E Buzzati constrói esse tempo lento com repetições de trechos inteiros, formando ciclos de ações durante o romance. O ritmo contido, as ações sem muitos rompantes. E quando nos damos conta, passou-se mais de uma década e nada mudou na vida dos personagens.

O próprio Buzzati diz que trabalhou entre os anos 33 a 39 no Corrieri della Sera no período noturno. E que era um trabalho monótono e chato, e ele se perguntava se seria para sempre assim, e se os sonhos da juventude iriam pouco a pouco atrofiar-se, se chegaria finalmente uma ocasião de mudar. Foi quando pensou nessa história.

O livro fala, como diz Ugo Giorgetti no prefácio dessa edição, da imobilidade da vida de qualquer um de nós. Da escolha que nossa geração ainda faz da recompensa futura. Que já não é mais o paraíso, posto que não há mais metafísica por aqui, mas a aposentadoria, a mudança, a grande viagem, as férias, o fim de semana…

[O deserto dos tártaros, Dino Buzzati. tradução: Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Nova Fronteira, 2005]

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2 thoughts on “No deserto dos tártaros

  1. “Agora sentia até uma sombra de opaca amargura, como quando as graves horas do destino passam ao nosso lado sem nos tocarem e o seu ruído se perde ao longe, enquanto continuamos solitários, entre redemoinhos de folhas secas, a sentir saudade da terrível mas grande ocasião perdida. “

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