1991

No ano que aprendi a escrever, morávamos numa casa que não fechava por fora, por dentro um trinco muito delicado e inútil, uma representação simbólica de segurança, que correspondia bem àquele tempo . Era esse pedaço de ferro muito leve, menor que uma caneta, que protegia a noite da família, o sono das crianças. E por consequência a vida, as coisas, a saúde, a felicidade.

Nessa casa a gente sentia as frestas no inverno e acordava por causa delas no verão. O tempo todo passava por elas, era um relento que atravessava as paredes do quarto.

Tinha uma inflação no Brasil, mas em vez de fazer estoques de mantimentos como sugeria o jornal nacional, a gente era obrigada a manter uma caderneta anacrônica insustentável no armazém do bairro.

Mas eu ganhei do meu irmão mais velho, no começo desse ano, meu único conjunto completo de materiais escolares. A lista toda, uma tesourinha cor-de-rosa que também apontava os lápis, 12 cores, grandes, da Faber Castell. Tinha plásticos coloridos para encapar os livros, caderno de desenho, tinha lápis com borracha na ponta, tinha até uma toalhinha de mão.

E aprendi a ler.

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