szymborskiante


O que é esta mesa? Mesa. Para onde te leva essa palavra?

E se te descrevesse o som que faz quando a arrasto, se te contasse o que larguei sobre ela, meu anel pesado, os lápis sem ponta, as canetas, um bilhete para mim mesma, memória, o dicionário, a faca.

E se eu a pudesse encontrar, a palavra exata (a que não existe) ainda assim não daria conta da natureza mole e firme, da superfície macia que reveste as fibras duras sobre a qual apoio minhas mãos, e o caderno, essas teclas.

Não sei dizer se a madeira é fria. Mas sei que fria é também uma redução linear daquilo tudo que se movimenta no calor, daquilo tudo que se encolhe de frio, o caminho que percorre desde os dedos, os nervos.

A palavra não é. A palavra representa, reduz, a palavra é falta.

E se digo silêncio, que barulho provoco, os sibilos? Que memórias de águas, barulhentas, que vozes intrometidas de sussurro?

A verdade é também uma palavra. O amor. A falta. O gozo.

E reunimos mil palavras, como se juntas essas peças esburacadas se completassem.

Elas se aprofundam.

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