por dentro

Alguém um dia refletiu sobre o caráter ensimesmante dos trens subterrâneos. Sem as paisagens lá de fora, os postes de luz e as portas abertas das padarias, as frutas nas caixas das quitandas, os brinquedos de plástico, os sacos de estopa, as mulheres com jeans e camiseta e sandália sem salto, os homens com bermuda, boné e tênis de corrida, os cães presos com coleiras macias ao redor do pelo limpo, os cães livres esfregando a sarna na quina das paredes e as janelas dos cafés com wifi e ar condicionado e as mesas de plástico dos botequins, a mulher segurando um livro e um cigarro aceso, os adolescentes com fones de ouvido, com os cadernos da escola, com os cachimbos de craque com as sacolas de compra. Nada disso, nem as pequenas flores dos vãos da calçada. As árvores podadas ao redor dos fios de luz. Nem as pombas e os copos de plástico do chão, nada disso ocupa a cabeça de quem anda em metrôs. Só restam os caminhos do de-dentro. Os olhos mortos enxergam pelo avesso. Os nervos, a memória em silêncio, o discurso que não foi mas deveria. Um ensaio de vida.

E me pergunto o que tenho feito em todos esses dias. Lido muito menos, ouvido alguma música. Mas tenho andado de trem, os que passam por cima da terra, seguem uns trilhos antigos me levando ao trabalho (aquele que significa pouco, que acrescenta quase nada), às urgências das coisas e aos prazos.

“Ler poesia para quê? / Eu trabalho muito, sou contemporâneo. Ler poesia para quê?”

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