o que tenho aprendido

1. Com meu trabalho

No primeiro semestre de  2004, eu li errado um anúncio de emprego e fiz no começo do segundo ano de faculdade um teste para um estágio como revisora de textos numa editora de Curitiba. Desde então, ler textos que eu não leria a não ser em troca de alguns dinheiros passou a ocupar a maior parte do meu dia. 

Não só ler, é claro. Mas acertar as vírgulas, cortar verbos desnecessários, trocar palavras inexatas, alterar sentenças truncadas, desfazer nós de quem até queria ter escrito aquilo que não conseguiu, enfim. Árduo trabalho invisível. 

Nessas últimas semanas eu tenho revisado livros de ficção (eu quase coloquei aspas aqui) de uma editora pequena — mas com bastante ambição comercial — que, entre outros nichos, tem explorado a publicação de livros por encomenda dos próprios autores. Em troca da grana investida na ‘realização de seu sonho’, o aspirante a autor recebe em casa uma boa parte dos exemplares, ganha uma capa, uma coleção de peças semelhantes com seu nome na capa, convida uns amigos, come amendoim com frisante num fim de tarde em alguma livraria charmosa. Dorme em paz. Se animado, quem sabe ainda faça um filho. Ou planeje o plantio de algumas mudas de jatobá. 

E enquanto tento do meu lado dar uma enxugada no exagero de descrições, de verbos, cortar aqui e ali para ver se um pouco de suspense firmaria um pouquinho que fosse aquelas estruturas flácidas, úmidas de tantas frases feitas, soluções clichês – a chuva no funeral, o cara que não liga, a ninfeta séria — fazendo um esforço carinhoso para não me irritar, aquele Proust ali me esperando e essas quatrocentas páginas de nada que não correm, eu penso para ver se descubro:

a) o que faz a literatura continuar nessa posição mística, tão elevada e ao mesmo tempo fácil (basta algumas musas, uma dor de cotovelo daquelas que qualquer um pode escrever, assim, numa sentada só) ?

b) o que teriam os livros de tão afirmadores de caráter, que valores a ficha catalográfica com seu nome nela lhe atribuiriam?

c) de que vaidade específica temos falado?

d) o que leva uma pessoa com tão restritos sensos estéticos, com referências tão superficiais, quase nenhuma crítica, a escrever um livro, publicá-lo, pagar por isso, imprimir muitas cópias, manter nem que pequena uma esperança de leitores?

e) de que tipo específico de salvação temos falado?

Anúncios

One thought on “o que tenho aprendido

  1. “o que leva uma pessoa com tão restritos sensos estéticos, com referências tão superficiais, quase nenhuma crítica, a escrever um livro, publicá-lo, pagar por isso, imprimir muitas cópias, manter nem que pequena uma esperança de leitores?” É serio isso, porque olha, é preciso um elitismo muito arraigado para escrever isso aí.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s