Marinho

É como se ele construísse dia a dia uma arca.

Minúscula, invisível.

Incapaz de se concentrar no presente, só lhe importa a extinção de seus planos: se aposentar e se mudar para o litoral, viver sem compromissos e aos domingos de inverno assistir ao velho mar ali na sua frente, como quem vê os aquários das vitrines, o mar ali na sua frente, grudado no mundo.

Há uns anos, meu pai fixou-se no mar. E hoje sabe que seu destino é envelhecer na beira, morrer diante do imenso. Meu pai, tão não pescador.

É que não são peixes o que busca ali. Quer distrair seus olhos perdidos naquele horizonte fluido e impossível, na exata linha onde, ilude-se, percebe o céu esvaecer-se em oceano, silenciar-se diante dele sem ser incomodado, a praia sem atrativos numa tarde cinza, o vento carregando vilas de areia esquecidas desde a tarde ensolarada do último dia do verão.

É de areia, sal e água a estrutura de sua arca. É de sonho e expectativa. Meu pai constrói em silêncio uma arca que o levará ao fim do continente.

Enquanto isso, trabalha algumas horas como porteiro de um condomínio de classe média. Uma folga por semana, nove horas por dia. Foi o que conseguiu aos cinquenta depois de três anos desempregado. Não tem o direito de reclamar apesar da angústia, por isso concentra-se apenas no dia em que juntará suas coisas, contratará um caminhãozinho e levará tudo o que é seu para uma casa na praia. Se quiser, minha mãe vai junto.

E constrói no seu próprio avesso um grande barco. É feito de lembranças alheias o argos que o levará para o limite do mapa. Dispensará âncoras e velas, meu pai preferirá a deriva como guia.

O desejo torcido é a corda que leva o barco ao ancoradouro.

Meu pai é pintor. Pinta paisagens coloridas de pedras e árvores, araucárias em campos ocre, tulipas amarelas sobre verde, inventa raízes enquanto desconecta-se do mundo, casinhas caiadas na beira de rios indeterminados, seu céu é sempre azul, as cores sempre as cores primitivas das coisas. O silêncio é otimista enquanto cria seus quadros, que preenchem as paredes da sala, as paredes do quarto, todos expostos sem muita ordem mas que juntos, embaralhados uns sobre os outros, revelam em cifras sua vida misteriosa. Não há homens em nenhuma paisagem, cidades vazias, só a natureza em cantos intactos.

Meu pai é pintor que pinta silêncios. Deve ser por isso que mistifica a velhice aposentado de pés descalços diante de um cavalete sob o céu aberto, tentando traduzir o mar em pigmentos, deve ser porque pinta a si mesmo que o mar (silencioso e imenso), apesar de não recorrente, lhe é sempre um bom motivo, deve ser porque para ele não é segredo ser da mesma natureza transparente e densa dos oceanos, a que esconde os mistérios da vida sob muitas camadas finíssimas, muitas espécies de peixes num abismo cujas paredes são água. Ele se reconhece nele, por isso o mar lhe é um alívio dos dias entediantes. Por isso adaptou-se há tanto tempo em estaleiro.

Meu pai é pintor de autorretratos.

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