anotação para um projeto visual

shut your eyes, and see.


Acessar a memória de uma casa de que não me lembro. Partir de uma investigação pessoal para discutir as imagens da construção da minha vida, da minha infância. Imagens que retornam em todas as novas trocas que fiz, faço e farei com o mundo fora de mim.

As histórias reiteradas sobre como vivemos ali naquela casa de que não me lembro fortaleceram o cenário que consigo ver ainda hoje. No entanto, jamais saberei quais dessas imagens se construíram a partir do contato real com aquele corredor, com a varanda, com janela larga do quarto e quais são as imagens imaginadas a partir dos relatos dos mais velhos, da minha mãe, dos meus tios.

Écfrase é a descrição de uma imagem. Quando se está longe dela. Um mensageiro a retém na memória para compartilhar na aldeia. Homero com seu canto reconstruiu cada detalhe do escudo de Aquiles. Compartilhar, portanto, uma imagem que não está por perto, mas que já esteve, pelo menos para um.

E a partir delas, compartilham-se memórias. Transfere-se o resultado da experiência.

O narrador que atraca o barco no cais do vilarejo. Viajou a lugares impossíveis, longe dali. Nem todos tinham a coragem do marinheiro, no entanto, têm agora, como ele, a lembrança de tudo que se reteve na memória e que se transferiu, num gesto de compaixão. E desse modo, interligam-se as vidas. E a dureza física do tempo e do espaço se dilui, todos viajam em retrocesso pelo mesmo caminho que o narrador acabou de fazer.

Antes da reprodução de imagens, das fotografias, das gravuras em livros, descrevia-se o mundo. Para que se soubesse, mesmo na impossibilidade dos grandes movimentos, que a vida era bem mais que a aldeia.

Havia, portanto, um trabalho de tradução.

Bergson. Sophie Calle. Rosangela Rennó. Boltansky.

Somos soterrados por imagens. E dessa forma, não vemos nada. Ou, pior, tudo o que vemos se equipara. A foto da garota morta, do presidente fazendo alianças com o corrupto, um quadro do Rembrandt ou uma propaganda são nos mostrados como se equivalessem. São achatados, confundidos.

A velocidade ilude. Apaga os espaços em branco dos fotogramas que não me movem. E se a velocidade aumentar serão as próprias imagens que se apagarão. Ficaremos todos numa cegueira barulhenta, sob o zumbido de um mundo que excede. Por isso preciso falar da não imagem, por isso ser lento, concentrado, é revolucionário.

Calar-se, isolar-se. O silêncio é revolucionário.
Então temos já três elementos: memória, descrição, silêncio. Acrescento ainda a não-imagem. A lentidão.

É preciso o oposto dessa ansiedade. A calma e a lucidez, mesmo falando, como falaremos aqui, disso que é inacessível, a lembrança, a imagem do de dentro.

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