conquistando São Paulo

(ou primeira versão da minha saudade de casa)

As pedras das esquinas desta cidade que me detesta
não construirão uma casa
nem um templo.

As pedras das esquinas desta cidade que não me ama
já foram tijolos novos, barro.
As pedras das esquinas desta cidade não são montanha.

As pedras desta cidade ficam na esquina no meio do meu caminho
quando volto pra casa às seis da tarde segurando uma sacola com pão.
Ficam no meio do meu caminho quando volto pra casa empurrando meu corpo.

As pedras das esquinas desta cidade me detestam
e não são rochas.
As pedras destas esquinas são farelo de concreto, morte.
Restos da cidade que não me suporta.

As pedras que me atrapalham são ruína
que me impedem a passagem
no meio do meu caminho
quando volto pra casa segurando uma sacola com pão empurrando meu corpo
que me detesta
que vive nesta cidade
de ruínas, pedras e esquinas

* Uma advertência. Tudo o que se vê aqui neste blog é um em-processo. Me dou conta de que esse é o nosso tempo, tempo de coisas não terminadas, de acúmulo.  Mas nada combina mais com as cidades gigantes e povoadas que as obras rodeadas de andaimes, cercadas por tapumes, que as estruturas inadvertidamente à mostra, as feiuras. E o ato poético, ultrapassando as tentativas da linguagem, é também a exposição das falhas.

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