classificados

Quando era criança, se divertia brincando com as plantas dos anúncios de apartamentos dos classificados de imóveis. Ela esticava o jornal na sala, folheava-o até encontrar o caderno de classificados, e torcia para que um grande empreendimento estivesse em decurso, uma obra gigantesca que compensasse a publicação de uma planta numa meia página, colorida e detalhada. E então, ela se transfigurava magicamente em um bolinha feita de papel amassado e assim, no tamanho apropriado, passeava pelos cômodos da casa, fingia sentar-se na sala, sozinha em silêncio, ajeitando o que estivesse fora do lugar, sempre calma e em silêncio, sozinha lá, não queria ligar a televisão, mas ler no sofá tomando uma xícara de café fumegante, o roupão de cetim sobre um pijama bonito, depois ia para a cozinha preparar alguma coisa para comer, e podia passar o resto do dia deitada no quarto de portas fechadas – ou abertas, não fazia diferença – porque seu irmão não caberia ali naquele espaço, nem sua mãe entraria abruptamente para se queixar de seus problemas, nem a filha chata da vizinha mancharia as cortinas brancas com as mãos sujas sabe-se lá de que comida gordurosa e fria. Sentia-se livre na sua casa imaginária. Sozinha e feliz.

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