Ensaio no Rascunho de dezembro

Há passado também na reação do nosso corpo aos objetos que nos rodeiam, mesmo que, inconsciente, tudo aquilo que aprendemos e tudo aquilo que forma isso que chamamos de caráter seja um passado, sejam as memórias, que ajudam a perceber o mundo. E essa nova percepção, feita de passado (mas também de “promessas e ameaças”, que se chamam futuro), virará memória e será útil para que “acrescente e complete a experiência presente, enriquecendo-a com a experiência adquirida” e assim, a cada nova experiência acumulada por meio da memória, com mais acuidade vemos o mundo.

Por isso só é escritor quem foi antes (e continua a ser) um apaixonado leitor, porque nos parágrafos que compõem a obra não há originalidade nem genialidade milagrosa, mas antes memória de tudo aquilo que se leu, e que, misturados às experiências e percepções do mundo também retidas na mesma memória, se remontam em uma obra nova, mesmo que se no momento do devaneio criativo essa memória não seja consciente. Mas de todo modo, a memória estará no corpo e a escrita, dizia Gonçalo Tavares, é uma atividade física. Não há dons inatos, nenhuma sorte genética ou espiritual. Há o narrador de Benjamin, o homem que viveu e se espantou com o mundo e que volta para contar suas histórias.

 

(Trecho do ensaio publicado no Jornal Rascunho deste mês. Clique aqui para ler o texto integralmente).

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2 thoughts on “Ensaio no Rascunho de dezembro

  1. Adorei essa parte:

    “Não são só os olhos, doentes ou não, que se movem acompanhando as linhas de um livro. Move-se a vida toda e a que ainda virá. Porque depois de um grande romance, depois de ler Cem anos de solidão, por exemplo, já não será aquele que seria sem tê-lo lido. E essa descoberta é libertadora. Em potência temos tantas vidas quanto os volumes de uma biblioteca. Quanto mais se lê, mais é possível enredar e reorganizar todas as vidas (a que foi, a que está sendo e a que virá). E quando se estiver em outra vigília, diante do mundo, prático ou não, também ele será outro. E o mesmo mundo será vários, mesmo que a área em que circula não passe de dois ou três quarteirões. Porque tudo é movimento, tudo é duração e descontinuidades, sempre haverá algo a mais que se veja. E, insisto, esse ponto novo percebido só agora impactará toda a vida que foi (mas que se mantém na memória do corpo), a que está sendo e a que virá.”

    E, já estava sentindo falta dos seus textos. Conheci seu blog há menos de 1 mês (eu acho), e devorei ele, em poucos dias – tentei ler lentamente pra não me senti muito órfã depois, pois isso costuma acontecer muito comigo -, obviamente, não li tão devagar assim, rs.

    Eu gosto muito de escrever também, mas, ao contrário de você, eu não levo jeito nenhum pra coisa. (e não tenho muita força de vontade, também). Mas, quem sabe um dia, né? (=

    É isso, um abraço.

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