o corpo e o trabalho

Temos um amigo que mora em Pato Branco, PR. Nos encontramos nas férias de Natal (em que trabalhei na mesa do lado de fora da casa dos pais do meu namorado) e ele nos convidou para jogar fliperama.

Fliperama? Isso ainda existe? “Então, eu fiz um”.

Não foi a palavra escolhida pelo Oxford, mas a palavra que eu mais ouvi em 2012 foi procrastinação, o termo empolado dito sem medo nem tropeço por qualquer pessoa que se mantenha conectado o dia todo, trabalhando.

Mas esse nosso amigo, o Márcio, cortou placas de MDF com dois metros, pintou, adaptou o computador, encaixou a tela, instalou os joysticks e fez um fliperama. E pra quê? Porque ele quis. E porque ele sabia fazer, e também porque seria legal.

Eu trabalhei todos os dias do Natal, tinha trabalhado todos os dias dos meses anteriores até bem tarde (mas quero muito manter minha condição de trabalhadora independente, portanto, quando os frilas aparecem, é assim mesmo). Ao lado da minha escrivaninha/mesa de trabalho, umas páginas com esquemas do livro que tenho escrito há alguns anos, os blocos de anotação, até um atalho para a pasta do projeto no desktop, um prazo razoável para concluir. Todavia, não pude. O corpo dedicado aos livros alheios, os que pagam as contas e etc.

Mas não é este o maior problema (ser como todo mundo, trabalhar pra pagar as contas, ocupar a maior parte da vida com atividades um tanto desprovidas de significados em troca de grana para comprar o essencial e o supérfluo). O problema é sentir o corpo acostumado com isso, priorizando isso. É transformar em minha identidade a função que exerço.

Dedico com muito empenho e concentração as horas dos meus dias para dar conta dos prazos, manter a qualidade e toda essa coisa. Trabalho com um material penoso que são os textos, os textos de outras pessoas. Leio na tela ou nas prints por mais de oito, nove horas nas semanas trash. E no final do dia, estou claro cansada, mas sem neuroses, envio os arquivos, parto para o próximo da fila, leio, reescrevo, anoto. Às vezes me divirto, aprendo e principalmente exercito a linguagem.

A mesma energia nunca aparece para me dedicar às minhas “coisas”. E procrastino, diminuo a importância, crio regras e rituais que não consigo cumprir (só escrever pela manhã, só escrever sozinha em casa, em dias inspirados, só escrever quando se tem certeza, só escrever se conseguir fazer o melhor parágrafo da história da literatura mundial).

Não quero, é claro, tomar a literatura que faço/farei como os textos que edito. É de outra natureza, tenho isso muito claro para mim. Mas o movimento do corpo é muito semelhante e, no entanto, ele me deixa muito mais ansiosa e inquieta do que as tardes de sol que preciso entregar aos livros didáticos de química.

Ainda não entendi como tirar o artista do corpo uniformizado.

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8 thoughts on “o corpo e o trabalho

  1. Van, este texto me caiu como uma luva.. Como fazer o que mais gosto sem procrastinar? Como você, invento rituais que não consigo cumprir.. Ainda não descobri como fazer o artista sair do corpo uniformizado, mas assim que eu descobrir eu te falo.. ou quem descobrir antes ensina à outra.. Parabéns novamente pelo texto..

  2. parece que li descrita a história da minha vida. trabalho com arte também, Vanessa, mas com desenhos. e “gasto” minha mão todos os dias em desenhos que não me dizem muito, que ilustram exercícios de matemática e às vezes até fogem do que eu gostaria de desenhar. e a minha HQ, cadê? o meu projeto, o que quero publicar e curtir fazendo o que realmente me importa? está encostado, porque não tenho TEMPO. chega a ser ridículo. aí seu amigo vai e constrói um fliperama. ok. vejo “desperdício” escrito em toda a minha cara…

    ótimo texto!

    1. Obrigada, Bianca!

      Mas é isso mesmo. Tem um lado muito bom em trabalhar com arte/texto. A gente acaba exercitando. Mas também a gente gasta as energias pras coisas dos outros. Acho que precisamos mesmo é achar um caminho conciliador.

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