guindastes

Com bastante frequência eu crio expectativas. Mas com bastante frequência eu me surpreendo. Por mais aberta que esteja ao diálogo emocional, eu não consigo prever o que me afeta.

Eu achei que o ponto alto da minha viagem em Barcelona seria ver muitas obras do Miró. E que em Lisboa me surpreenderiam nossas diferenças e semelhanças, e que me emocionaria com um certo arzinho de rancor quando chegasse ao ponto de onde partiram as caravelas exploradoras.

Em Lisboa não foram os monumentos, nem as igrejas douradas, nem as estátuas dos escritores, não foi Camões morto, nem o Fernando Pessoa reproduzido em todas as lojinhas de lembranças. O que me emocionou mesmo foi o céu azul de Lisboa, o vento gelado da primavera fria e as noites que nunca chegavam. Foi o sol daquela ponta do mapa, que sempre esteve ali, antes mesmo da minha língua ser construída, antes mesmo de Portugal.

Em Barcelona, não foi o Miró. Nem as casas modernistas. Mas os guindastes, os guindastes  que circundam a catedral do Gaudí, e tudo aquilo que elas falam de construção, tudo aquilo que elas falam de obra de arte, que elas falam sobre o fazer poético, sobre o nunca chegar ao fim, tudo aquilo que elas falam sobre duração, sobre uma vida inteira, tudo aquilo que elas falam sobre a morte. Sobre as expectativas.

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