poética dos cantos

Estou relendo A obscena senhora D, da Hilda Hilst. É um livro lindo, que marcou mesmo minha trajetória como leitora. Era muito nova quando conheci a obra da Hilda Hilst e mesmo sem entender muito bem o que ela dizia, eu me emocionava. Na verdade, era justamente essa sua capacidade de esconder o que dizia usando as palavras comuns  que me fascinava. Não que seja uma poética do cotidiano a sua, longe disso. Mas é que não era uma questão de procurar no dicionário o significado de sua poesia, ela falava de qualquer coisa que eu ainda não conseguia alcançar e por isso, por criar em mim uma fome de também alcançar esse patamar de percepção do mundo, eu a amei desde a primeira vez.

E hoje eu entendo, certamente entendo muito mais, o que seja um desejo de exílio, uma vontade de se proteger do mundo, mesmo que no vão da escada da própria casa.

Senhora D, é definitivo isso de morar no vão da escada?

Há alguns meses li El discurso vacío, de Mario Levrero. É outro livro maravilhoso, e que se misturou a essa releitura de Hilda que faço agora — são justamente essas colagens de significados afetivos que faz da literatura e dos livros que amamos obras infinitas.

Nesse livro, o narrador também se esconde. Se esconde ou tenta se esconder por trás de uma espécie de treinamento, um exercício para melhorar sua caligrafia e assim, seria natural, melhorar também seu estado de alma.

Debo luchar contra las fobias y contra la inmovilidad, la pasividad, sobre todo porque detrás de esta pasividad se oculta una poderosa fuerza destructiva. Sería preferible que rompiera objetos, que hiciera cualquier cosa antes que continuar en un estado insensato de espera, durante el cual nada se va a resolver. 

Daniel Galera falou deste livro em uma de suas colunas. E ele falou também, mais recentemente, sobre essa vontade que os escritores sentem de manter um vazio ao seu redor, um vazio silencioso e imprescindível para que haja possibilidade de escrita. Nada mais compreensível nesse nosso tempo de exposição, mercado e carência. Nada mais compreensível nesse tempo de não-presente, de ansiedade (para minha geração, o presente é aquilo que já se escreveu há 30 segundos numa lista de informações úteis, bonitas ou estúpidas em uma página colaborativa da internet).

Me fastidia ser tan influenciable y dependiente de una sociedad con la cual no comparto la mayor parte de sus opiniones.

Sentir saudade do silêncio e da sinceridade como olhamos a nós mesmos é urgente nesse tempo em que formamos círculos onde tudo que é importante para nós parece ser importante para 90% do mundo. É que criamos grandes comunidades virtuais de similares e, sem sentir, nos mantemos numa casa da árvore, num clube de seres solitários que não se olham nos olhos nem no espelho.

Pontes enterradas.

Senhora D, a viva compreensão da vida é segurar o coração, me faz um café.

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2 thoughts on “poética dos cantos

  1. Comecei Hilst com Fluxo-Floema. Foi o primeiro livro que li no ano passado. Estou aqui com uma obra muito linda de entrevistas suas, que trata justamente dessa coisa que é o entendimento, de como as pessoas não compreenderam devidamente sua obra (o título é Fico Besta Quando Me Entendem, veja só).
    Eu sempre quis ler A Obscena Senhora D. Agora me vem a oportunidade – comprei o livro faz pouco tempo.
    Amo essa poética que grita pelos cantos.
    Abraços.

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