A poética do vão da escada

rachel whiteread

Pela casa, somos enraizados no mundo. A casa, feito planta, sustentada pelo porão, cresce em direção ao céu. O ápice, o sótão. É nela que nos sentimos seguros. Ao mesmo tempo, ela nos representa, imita nossa própria verticalidade (Homo erectus).

A casa é um corpo de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de estabilidade. (Bachelard, p. 36)

E a casa se (des)dobra em outros espaços. Gavetas, armários, cofres – espaço de intimidade e de segredo. Escadas que só sobem (que levam à racionalidade do sótão), outras que só descem (aquelas que conduzem à loucura enterrada do porão). E, finalmente, cantos.

Com efeito, não encontramos nas próprias casas redutos e cantos onde gostamos de nos encolher? (Bachelard, p. 21)

O vão da escada é o canto escolhido por Hillé, a obscena senhora D – D de derrelição, desamparo, abandono. Há tanto tempo buscando o sentido das coisas, Senhora Hillé ficou demente e passou a viver em seu claustro doméstico, preenchendo o vazio do espaço sem utilidade com o próprio vazio, o de alguém que nunca encontrou respostas:

Desamparo, Abandono, desde sempre a alma em vaziez, buscava nomes, tateava cantos, vincos, acariciava dobras, quem sabe se nos frisos, nas torçuras, no fundo das calças, nos nós, nos visíveis cotidianos, no ínfimo absurdo, nos mínimos, um dia a luz, o entender de nós todos o destino, um dia vou compreender, Ehud (Hilst, 2001, p. 18)

rachel whiteread

Quem sabe, não seria no vão da escada, nesse espaço oco, que estariam as respostas de Hillé? Ainda no início do livro, a voz de seu marido morto, Ehud, adverte-a:

Senhora D, é definitivo isso de morar no vão da escada? você está me ouvindo Hillé? olhe, não quero te aborrecer, mas a resposta não está aí, ouviu? nem no vão da escada, nem no primeiro degrau aqui de cima, será que você não entende que não há resposta? (Hilst, p. 19)

Hillé sente-se vazia, vazia como um vão, por não ter encontrado as respostas das perguntas que a atormentam. O lugar em que está é um reflexo de seu próprio ser, ou, repetindo aqui o verso de Noël Arnaud citado por Bachelard: “Sou o espaço onde estou”.

Mas vazio e preenchimento não são necessariamente opostos que se anulam, assim como, para Bachelard, a oposição entre exterior e interior só existe na geometria. Se Hillé é vazia, sente-se vazia, é porque preencheu seu corpo durante décadas com lacunas. O vazio do vão da escada é preenchido com o vazio de Hillé, que, por sua vez, é preenchido com a angústia de querer saber. Só existe vão porque há o chão e o avesso da escada – assim como o silêncio é o intervalo entre dois ruídos. 

O romance é construído com um intercalado de vozes, a voz de Hillé, suas alucinações e perguntas e a voz de Ehud, filtrada pela memória dela. Assim, na própria tessitura do romance a interioridade e a exterioridade da personagem se fundem, se confundem. Hillé, assim como a imagem do canto, é uma ilustração da dialética do interior e do exterior. Ao mesmo tempo em que está naquele espaço, que habita o vão da escada, ela está presa em suas angústias. Nesse entrelugar, entre o interior e o exterior, Hillé parece perder o seu “estar-aí”. 

Pelo medo do inexplicável, daquilo que nunca saberá, Hillé resolveu se esconder. Não toca naquilo que não sabe, encolhe-se. Mas, mesmo ali, no vão da escada de sua casa escura, sozinha, com seus fantasmas e dúvidas metafísicas, talvez lhe fosse útil a lição vista em outros cantos da mesma autora: “e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti.”

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BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Tradução de: DANESI, Antonio de Pádua. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

HILST, Hilda. A obscena senhora D. São Paulo: Globo, 2001.

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