autoficção

Quando Vanessa saiu de sua casa na manhã de segunda, e andou pela rua de sua vizinhança calma no horário em que só caminhavam os portadores de cachorros, os corredores e os trabalhadores dos condomínios, para entre outros visitar seus pais em sua cidade natal, ela não imaginava que seria tão perfeito. Que seu encontro com seu pai na rodoviária em construção  pela metade derrubada pela metade novidade seria tão confortável apesar do silêncio, que teriam finalmente o que conversar, talvez a respeito da publicação sobre o cubismo que ele carregava consigo, tinha resgatado de um sebo momentos antes e recuperado um mesmo título que ele mesmo teria vendido no sebo, não nesse mesmo, quem importa, teria vendido anos antes, com os outros livros que ela teria comprado para ele como presente de aniversário dia dos pais e natal para comprar cigarros quando seu trabalho já tinha se tornado obsoleto, ou falariam do motivo dessa sua viagem tão inesperada e fora de tempo Sim, uma antologia, Sim, de poemas Sim, pois é, eu escrevo, escrevo sobre vocês também e sobre todas essas coisas perturbadoras e que não entendo.

Vanessa atravessou as montanhas sobre asfaltos regulares, atravessou a paisagem calmamente e sem qualquer sacrifício do corpo, a não ser o desconforto do banco que não reclinava e a obrigatoriedade das pernas dobradas. Vanessa atravessou as montanhas e grandes rochas muitíssimo mais velhas que ela e paisagens de árvores ainda incomuns, até encontrar o amontoado de auracárias lhe dizendo que Sim, é a minha terra, que bom retornar.

Porque nada mais a incomodava a não ser o romance que lia e as novas pastas de músicas com que preencheu seu Ipod. E houve momentos em que tudo isso se sincronizava, a paisagem lá fora, a música nas orelhas e aquelas pessoas inventadas por uma outra pessoa que de tão improváveis se tornavam a cada página mais íntimas e indispensáveis (Vanessa é do tipo que desacelera a leitura para não sentir saudade) e nesses momentos, esses raros de total consonância, Vanessa só tinha vontade de ler mais, e ainda mais, e que a viagem continuasse, e a música e todas as pilhas do mundo e toda a vida que restava poderiam ser gastas na poltrona 5 da Itapemirim.

E quando finalmente ela chegou, encontrou seu pai na rodoviária e juntos rumaram ao bairro onde passou aqueles anos estranhos da adolescência ouvindo metal melódico com a amiga suicida que guardava o esqueleto de um râmster em um vidro de maionese no quarto para quem mostrava uns poemas e umas músicas e quando finalmente chegou naquela rua onde ainda ficam frente a frente a ex casa e a ex escola, Vanessa sabia que sua mãe a esperaria com muita saudade e felicidade e que alguma coisa gostosa tinha sido preparada para o almoço. Ela não se sentiu culpada em ver que sua mãe dormia como tem feito todos os dias há semanas, ela dessa vez não teve uma certa repulsa em abraçá-la, mas pelo contrário conversaram sobre muitas coisas, comeram, depois se sentaram e os três, Vanessa e seus pais, conversaram ainda mais. Ela não se sentiu culpada por ter aberto a geladeira, checado que seria bom fazer umas comprinhas mais saudáveis, quem sabe organizar a sala ou a cozinha, arejar, ela não se sentiu culpada por eles estarem assim tão resignados e distantes e tão longe da sua vida porque não estavam, ah, era tudo tão perfeito, seus irmãos de quem se sentiu íntima de novo a ponto de convidá-los ao evento do qual participará Sim, uma antologia, Sim, poemas, é eu escrevo. Não, nunca conto a minha vida, tudo isso aqui é inventado eu não tenho motivo nenhum para reclamar de nada.

Vanessa foi dormir tranquila. Amanhã seria um dia muito intenso, encontraria amigos importantes, sentiria muito feliz em estar com eles. Vanessa não sabia que seria um dia assim tão perfeito quando acordou às 6 horas na segunda para tomar um café antes de sair. Ela sente-se segura e feliz, está tudo muito perfeito.

[música]

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