Hans Bellmer

  La poupée (1939)

 

Era uma vez um menino que se sentia absolutamente sufocado pela autoridade do pai. E para fugir disso criava jogos sexuais proibidos num canto secreto do jardim.

O menino cresceu. E se viu sufocado pelo estado fascista. E rejeitando de maneira obscena  e violenta a arte bem vista por esse estado, passou a criar desenhos e fotografias que nunca mais seriam facilmente aceitos.

O menino crescido, mas ainda deslocado do mundo, recriou seu jardim secreto e profano construindo bonecas, como nos contos de Hoffmann. Suas poupées, obra de uma vida inteira, era a materialização concreta da rebeldia da infância, mas ao mesmo tempo o conforto de uma presença, da presença de um amor platônico, de um reconhecimento do mundo. Ainda que distorcidos, monstruosos e frios, eram esses corpos que lhe faziam uma companhia impossível. Um conto de fadas para adultos, tristes e sem saída como são os contos de fadas. Uma espécie mais poética e maldita de Gepeto.

Não sei nada ainda sobre este artista, que apareceu há pouco tempo na minha vida. Mas suas bonecas me fizeram pensar. Se não é esta presença a esperada por todo mundo que cria qualquer coisa (e todo mundo cria coisas o tempo todo). Porque estamos sozinhos. Esbarrando uns aos outros com amor ou indiferença, mas nunca nos aproximando ao máximo: porque essa aproximação é impossível. Cantos secretos de jardim onde construímos, nos melhores momentos, aquilo que não seria bom que soubessem — mas que  todos saibam e reajam e te olhem. Um pouquinho de atenção (princesa desmaiada, mas numa redoma transparente). A voz de outro direcionada apenas a você entre esse embaraçamento de monólogos que se tornou um dia comum do nosso século.

A verdade é que finais felizes não existem. Re-mediar o durante. Eis a conclusão.

 

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One thought on “Hans Bellmer

  1. São bonecas assustadoras, essas. E, ao mesmo tempo, rende fascínio da parte de quem as enxerga. Eu tenho uma sensação parecida com relação ao quadro A Persistência da Memória, de Dalí. Os relógios derretidos me irritam e amaldiçoam. Eu nunca saberei interpretar e/ou decifrar completamente essa arte.
    Abraços.

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