potlatch

1. eu não tenho medo de envelhecer, mas tenho medo do tempo que passa.

2. porque o tempo passando me deixa cada vez com menos tempo de fazer o que eu quero.

3. e o que quero precisa de muito tempo, de muito silêncio.

4. e eu não consigo esse silêncio porque apoiado em meu ombro direito alguém com muita astúcia me diz baixinho “isso não é para você”.

5. outras pessoas, reais e inventadas, já me disseram isso também e por isso não há silêncio — a memória tem o jeito dela de fazer um ruído insuportável.

6. e é preciso silêncio e tempo. e segurança.

7. e eu não tenho nenhuma segurança.

8. o sonho recorrente dos treze anos era: eu correndo sobre um chão cheio de frestas de onde eu via o abismo lá de baixo.

9. eu tenho medo do tempo que passa porque não quero ter uma carteira de trabalho assinada.

10. eu não quero nunca me aposentar.

11. nem sempre tenho fome às doze horas. nem sempre tenho disposição às oito horas. tem noites que trabalho muito mais.

12. está claro o que não quero para minha vida, porque já vivi a vida que não quero.

13.  mas o que quero talvez  não seja para mim. devo ouvi-la?

14. o que quero demanda silêncio. e tempo.

15. mas tenho medo do tempo que passa. e quase nunca há silêncio.

16. tenho medo do tempo que passa porque vou morrer. daqui quarenta, cinquenta anos, com muita sorte. e agora com trinta não fiz muita coisa relevante — se viver do mesmo jeito que vivi até aqui eu não vou conseguir.

17. quando eu tinha doze, trinta anos era onde eu queria estar.

18. ontem ainda eu fazia vinte e tinha certezas grandiosas escondidas sob a falta de tempo.

19. hoje eu tenho tempo. sei o que quero. mas não há silêncio.

20. tem o barulho do de dentro. tem o barulho lá de fora: e não falo de buzinas nem de britadeiras, mas do excesso de palavras e certezas. quem tem certeza não ouve. quem não ouve não se cala.

21. o que quero não é muito adequado para se fazer neste país. não sou filha de ninguém. moro do lado errado do mundo.

22. “não aceitamos originais”.

23. 3 mil é que fração de 170 milhões?

24. uma página por dia e, ainda sim, falhei.

25. a escrita é um ato físico, mas é preciso conseguir levantar os braços. é preciso conseguir levantar da cama.

26. é preciso levantar a voz? é preciso levantar os olhos?

27. pessoas arrogantes me intimidam com a mesma intensidade que me atraem.

28. sou aquela que é apresentada cinco vezes para a mesma pessoa cujo rosto não me esqueço.

29. eu tenho medo do tempo que passa porque não quero me arrepender do que não fiz.

30. me sinto livre para fracassar.

______

O escritor e seus múltiplos vem vos dizer adeus.

Tentou na palavra o extremo-tudo

E esboçou-se santo, prostituto e corifeu. A infância

Foi velada: obscura na teia da poesia e da loucura.

A juventude apenas uma lauda de lascívia, de frêmito

Tempo-Nada na página.

Depois, transgressor metalescente de percursos

Colou-se à compaixão, abismos e à sua própria sombra.

Poupem-no o desperdício de explicar o ato de brincar.

A dádiva de antes (a obra) excedeu-se no luxo.

O Caderno Rosa é apenas resíduo de um “Potlatch”.

E hoje, repetindo Bataille:

“Sinto-me livre para fracassar”.

Hilda Hilst.

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