De sangue, ossos e sopro: duas novelas sobre Maria

       

Eu devia ter uns seis ou sete anos quando achava que a idade adulta (e toda a liberdade a ela associada) chegaria aos dezessete, idade em que minha mãe foi mãe pela primeira vez. Os meus dezessete não demoraram muito, mas finalmente chegaram, sem que nada de muito intenso mudasse: continuei a ser uma filha adolescente, cuja vida era mais ou menos facilitada por ainda não ser de fato uma adulta. Mas neste ano em que faço trinta anos, exatamente a idade que minha mãe tinha quando eu nasci, sinto com estranheza ter me tornado, integralmente, uma mulher. A partir dos próximos aniversários, eu serei mais velha que minha mãe. É, de certo modo, como se a tivesse perdido num cruzamento de tempos. Não obstante minhas convicções a respeito da maternidade, chegou o tempo em que devia ser abandonada por Ártemis, a deusa, que me deixou neste lado da vida civilizada, responsável e adulta e seguiu, segurando em seus braços um vazio, o do filho que não tive (e que, presumo, nunca terei). 

Trecho do ensaio que saiu na revista Mapa #2, publicação incrível da Arte e Letra.

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