insuficiente

As palavras são insuficientes porque terror pode servir tanto numa tentativa (insuficiente) de nomear as atrocidades diárias e históricas quanto essa sensação minúscula que aos poucos atrofia os músculos dos meus ombros e das pernas não totalmente mas na medida que me impedem de, por exemplo, dançar, como fazem aqueles que se sentem aptos, felizes ou leves. É um terror muito antigo que vem sei lá de onde e me deixa com vontade de entrar embaixo da cama e parar de respirar até que todo mundo saia mas aqui não há mais ninguém.

Um pesadelo de infância, nomes, insuficiente, que faz tudo parecer exagerado e sem motivos porque as palavras são insuficientes e não darão conta nunca das sutilezas, dos vazios, dos cinzas entre o impulso maravilhoso de um dia de sol com o qual nutro uma vontade sagrada de criação de coisas inúteis – um cavalo esculpido numa caverna lacrada – e a vontade de me encolher como encolhem os músculos dos braços até desaparecer completamente, silenciosamente, já que não consigo lidar com isso inominável que se chama estar viva e de olhos abertos e sentindo, carne viva, a morte.

As palavras são insuficientes também em sua permanência: um sol entrou pelas frestas da cortina e esquentou meu rosto como um elogio e me lembrou que daqui a pouco verei o mar e quem sabe se não me lembro de palavras bonitas que li até hoje? e as palavras ali de cima não me pareceram mais fazer qualquer sentido.

 

 

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