Mira Schendel

 

s.d. monotipia

Se você se aproximar o bastante das monotipias (e isso é o que é bonito em estar numa sala com elas) perceberá que o traço não foi imposto à superfície branca (e delicada, papel de arroz) com o mesmo movimento ancestral como humanos com braços fortes riscavam rochas lisas com suas orações e cálculos. Nesses desenhos, o pigmento preto se enreda por entre a textura do papel finíssimo, como um bordado minúsculo e incontrolável – ela entintava uma superfície de vidro, cobria com talco e depois colocava como se não o papel sobre o conjunto; com uma tampa de caneta ou mesmo com a unha traçava suas linhas; fez isso mais de duas mil vezes. Mas se se aproximar ainda mais delas, verá que o convite nem por isso foi menos violento — as estrias criadas no papel, a deformação, os sulcos são mutilações doloridas pelo próprio rasgo mas também pela submissão.

(Como fazer o mesmo gesto em literatura?)

 

 

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