Inocência

Sou formada em letras, trabalho com livros há dez anos. Escrevo. E no entanto reprovei em literatura no segundo ano do ensino médio. Depois me mudei de cidade, comecei a trabalhar, e ter sido repetente quase não me influenciou em nada. Era tudo novo e aterrorizante e ao mesmo tempo solitário e uma adulteza obrigatória teve de surgir quando precisei enfrentar no primeiro dia de trabalho um telefone com dez linhas e os estranhos com quem eu precisava ser simpática. Sem tempo para traumas colegiais. Ter reprovado em literatura quando eu tinha, quanto, quinze anos, foi bem menos ruim do que crescer de repente aos nove anos.

Eu reprovei porque minha professora tirou algum tipo de licença dessas que todos os anos algum professor da escola pública tira. E a única nota seria o trabalho sobre um livro romântico e chato do qual não consegui passar das primeiras páginas em que se descrevia as maravilhas da flora brasileira. Descobri que eram menos de quatro páginas. Mas pareciam infinitas e eu não sabia que a gente não era obrigada a ler um livro desde a primeira página.

 

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Eu não consegui ler porque era difícil, porque não sou dessas que enfrenta as dificuldades e portanto desisti porque sim sou dessas que desiste. E quer se esconder. Nem que seja na sala do segundo segundo ano.

Chegaram as férias, as notícias de mudança e um aperto na garganta. E então eu li o livro. Desde a primeira página. Até o fim. Mas já não adiantava muito. Não senti nada de especial em ter finalmente lido. Continuei a achar o livro chato, meloso, feito de um amor que aos quinze anos eu já tinha certeza que não existia mesmo, não daquele jeito. Eu era do tipo que fugia mas não do tipo fraca, jamais me identificaria com uma virgem do romantismo rural brasileiro. Eu tenho 1,75 desde os 13. Eu nunca fui externamente frágil.

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Mas depois, não muito tempo, eu descobri que as palavras não pertenciam a ninguém. E talvez pudesse pertencer um dia a mim.

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E é tão curioso que este livro se chame Inocência.

(*fotos do livro alterado pertencente à série O que é literatura, em que tenho me dedicado esporadicamente — não sou do tipo que persiste)

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