falemos de trabalho

by FLOWmarket

Uma das atividades de um retiro que fiz em um fim de ano um tanto estranho era lavar a louça do almoço (podia-se optar ainda em varrer a cozinha ou picar os legumes), mas eu preferi, como quem tenta a todo custo ascender a um estado um tanto mais iluminado, a lavar toda a louça do almoço de umas quinze pessoas, contando o lama e sua família e os monges em formação e as formas imensas de qualquer coisa vegetariana coberta com queijo e molho branco. E me lembrei disso esses dias, em que estou, há semanas, trabalhando demais. Como se não houvesse amanhã – ou melhor, esperando que tenha, para dar tempo de entregar tudo no prazo e ainda viver depois disso.

Mas trabalho com textos e isso é bom. Pois percebi que estou, ao mesmo tempo que cortando e substituindo e acrescentando palavras em textos alheios, cortando e substituindo e acrescentando palavras dentro de mim. E talvez seja por isso que quando o papel impresso ou refletido é paulatina e intermitentemente preenchido com minhas palavras eu tenho consciência de que, na verdade, as palavras não são minhas. É preciso ter cuidado em manipular e arranjar isso que é de outro (do resto do mundo), mas não se trata, escrever, de uma autogeração milagrosa. Escrevo com o corpo mas não o meu corpo, ainda que doa às vezes é menos importante do que parece.

A gente às vezes escreve calando. Ou revisando livros.

 

 

 

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