tempo e lugar

Comigo tem acontecido assim: um corpo mais ou menos enrodilhado sobre uma pilha de papéis impressos ou encarando um editor de texto. E quando esse corpo se lembra que se move e desce do prédio para um café um almoço uma volta ele se constrange com a gigantesca desproporcionalidade entre seus metro e setenta e o mundo.

E esse corpo procura lugares: recursos materiais que diminuem o perímetro e o volume do mundo, que preferencialmente lhe cubram o céu misterioso e protejam da natureza (caos).

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Ontem andei pelos corredores de um hospital abandonado. E menos pelas obras de arte que ocuparam o espaço, era o abandono (a pintura descascada, o ar de outro tempo acumulado em alguns cantos, a escuridão que escapava pelas frestas das salas que não foram ocupadas) que me deu uma experiência de tempo e lugar.

Eu circulei pelos corredores que tinham memória de cura, alívio, dor e morte. E entrei, porque fui convidada a entrar, a salas claras de onde se ouvia uns pássaros eternos (são os mesmos pássaros que um dia pareciam inverossímeis aos suicidas), esbarrei nos fantasmas dos frascos de arsênico.

Havia obras de arte incríveis que ajudaram na experiência. Mas foi aquela ramagem que quebrou um canto do assoalho que me deu a oportunidade de sentir o presente triplo (eternidade) do Santo Agostinho e o apocalipse de um filme do Tarkovski.

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A gente escreve porque o corpo enrodilhado antes descobriu-se com a verticalidade das árvores (lá fora).

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